[…]

vou por meu afeto
te encontrar nesta barreira
de amor em galhos de azul crepúsculo
e trago ali um pensamento singular
das sementes de abril
que trilham signos para além de nós
ou nem chegam a
ser
mas quero que estas palavras
acariciem o rosto eu
te
amo
o nosso
manto de luz o nosso rosto
e a história
de nossos pés descalços
na imensidão da impermanência
nos materializa
um fogo cruza à esquina
e
leva consigo
uma lâmina viva de destruir barreiras
quando no máximo se declama
a esperança
[…]

exercise_ from love to time

From love to time

I have no time to not
love and i had not but now
time to have not time
to love and love i have
now and no time to not
love

But time was taken from me
and from time i was taken
as time and love i have not
now no love or time to
have no time to love time
as love

Now love is to have time
to not have time to not love
and i had it and now i have not
time to love time from time
as it was me taken from love
to time

Do amor ao tempo

Não tenho tempo para não
amar e não tive – somente agora –
tempo para não tê-lo, tempo
para amar, e amor eu tenho
agora, e tempo nenhum para não
amar

Mas o tempo me foi tomado
e do tempo eu fui levado
pois amor e tempo eu não tenho
agora – amor ou tempo para
ter tempo nenhum de amar o tempo
do amor

Amar agora é ter tempo
para não ter tempo de não amar
e eu o tive e agora não tenho
tempo para amar de tempos em tempos
pois fui levado do amor
ao tempo.

flux5

eu te desejo uma palavra como a que escutei hoje, entre muitas outras palavras, fluindo através da água, das asas e das folhas que a correnteza trazia, que semelham a nossos rostos se mirando, dentro do tempo. palavras xamãnicas envoltas em música, expondo-me a real ilusão de mim mesmo com toda simplicidade pela qual o afeto transforma qualquer sujeição ao mundo. não há sujeito que não se permute com fenômenos orgânicos como o lagarto, a erva e o sol. hoje ou amanhã, o toque do outro deve alterar todo castelo ausente da vaidade e toda memória futura de meu sofrimento, como um relâmpago atravessa o ar, como um gesto sonoro encerra uma dúvida sobre o silêncio. uma palavra em que esteja contidos o silêncio e o canto, origem do abismo entre a negação de si e o beijo dos que não precisam da linguagem, e podem ser totais. uma palavra que nos conecte à experiência da alma para além do intelecto adoecido pelo excesso ou pela perda total de si. eu te desejo esta palavra que te transportará suavemente através dos objetos e dos corpos, rumo à tua própria alma e à alma de todos. esta palavra que envolve o eu e o outro como água derramada sobre a terra, ou como lenha ressecada transformando-se em vapor.

Vila de São Jorge

“Vamo lá ali, ó, vê ali lá!”

“É do jeito que é, mar num é
do jeito que tem de ser”

“O lobo do homem,
o homem do lobo”

“Respeita a pinga!”

“Santo Antônio, eu quero água!
Santo Antônio, eu quero água!

quero água pra beber
quero água pra lavar
quero água pra benzer

quero água!”

– “Eu tenho uma namorada,
eu fui na casa dela,
cheguei lá ela não tava
eu vou esperá ela
eu vou esperá ela
eu vou esperá ela
cheguei lá ela não tava
eu vou esperá ela!”

Estrelas num céu incontável

A gente tá tipo solto na amplidão dessas estrelas

Tamanha distância maior
é impossível de ser só distância!

Aqui, na vila São Jorge,
três estrelas cadentes por minuto!

“Arrepare, não!”

O menor espaço entre duas estrelas
se é o tempo do infinito!

“Apois sim vê si num esquece
qu’inda nessa lua cheia
nós vai brincar na quermesse
lá no riacho d’areia…”

Maciço jorro d’estrelas fixas
revelando que a noite é apenas
o que está metade além
do azul que nos distrai.

Deixo teu dizer que te amo por de trás do que eu nunca pude ser

como o instante do universo está em sua eterna escuridão

da noite que lhe dá vida

do impassível que a infinitude
do impossível da noite nos ignora
em nossa própria finitude

quando um respiro em mim
modifica
transubstancia
incorpora
um outro estar de mundo

– Vixe-Maria mãe de Deus!

Porque cedo eu tardo

Faz apenas calor ou frio

Como você ela está apenas em meu olhar

Quero-te ir mais adentro
como planeta sonolento
que se recobre
no próprio manto.

(agosto, 1, 2016)