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escrevo este poema este fenômeno poema para ocultar esta aparição vaga como as ondas são vagas em seu fluxo-refluxo e como a inscrição na areia desaparece após uma onda e outra este nome da aparição também nome da forma do átomo da linguagem para ocultar o real sob a lei do contínuo eu sou no poema para além da inscrição que desfalece na areia pois engulo a água e provo das leis do tempo como o sal infinito disperso nas vagas que me atingem com a linguagem liquefeita do poema em si nada mais que um fenômeno da linguagem desta linguagem esta unidade furta-cor do absurdo que se é quando para além de um tempo motor abstrato como aquele dos geômetras ou das monótonas leituras métricas quando para aquém de mim mesmo me exponho ao espelho mas com o rosto voltado para fora às voltas com o fora pleno de fora meu rosto embriagado de palavras reunido em torno delas para soá-las para silenciar-me nelas que possuem voz expressa voz patética do sensível presas a mim eu que sou do poema o entre e estou no poema entre tudo que vejo todas as coisas todo enfim este poema que escrevo este fenômeno poema para revelar o apagamento saturado como o branco do sol em sua imóvel feição e como o traço na memória resplandece ante o maciço sol unívoco sem nome em puro fluxo e vivente
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eu escrevo aqui para deixar aqui as sementes das coisas que me levam a escrever que me definem aqui que me intoxicam aqui sempre que escrever é não conter um silêncio demasiado rico em harmonia sempre que houver uma fonte que dista mais dos meus mesmos olhos do que uma torre em edificação desmedida e para reter tuas manchas no céu de uma estrutura que decai e para desrepetir essa estrutura sob o véu da noite e vê-la sobrar sobre si e vê-la se decompor sobre as escadarias de um prazer em puro desfazer desde a nascente de uma memória de que fui feito por divindades de que eu repito em mim tais estruturas já com vozes alheias de mim mesmo recompondo-me no instante decisivo o corpóreo instante que precede o afinar-se com o rio com a folha de teu rosto sobre os muros da cidade – que cidade já não possui muros em que eu não possa dependurar-me? eu gostaria de escrever aqui algo como plantas de afeto já prontas plantas de palavras sobre o escuro do outro sobre a claridade do instante das palavras que me derramam sobre você sobre você quando você sobra pelas garras do outro minhas garras possíveis de recobrar pois toda cobrança é desamor e desamor é apenas um instante em que as palavras se interrompem pois o corpo já não cessa de doer pela memória do impacto pela memória dos troncos de árvore que caem prematuros sobre a relva sobre teus cabelos que chovem sobre a sala sobre o quarto que me espera como uma tempestade sobre o peso dos livros sobre o peso do teu toque despido de impacto eu preciso reconstruir em meu próprio corpo a energia dos móveis dos suportes das caixas em que você se manifestaria como uma relíquia de cera que eu sempre manteria perfumada e sob o limite da minha agulha de cobrar minha dívida ao recobrar sua presença sobre o meu fluxo sobre minha pele que um dia você beijou que um dia você perfurou com a tua agulha que na verdade era mais como um novelo à espera de agulha todas essas coisas que eu digo são coisas agora de guardar coisas agora de demolir e guardar seu pó seu resquício miúdo quase invisível senão sob a lupa da lembrança e desde ela fecho todas as portas e gavetas edifico novos muros de cidade ao redor de meu labirinto interior feito por divindades ofuscadas de imagem e elementos de substância ignitiva como o aroma e a ferrugem dos olhos chorões diante do espelho meu espelho meu inebriados de brisa e rebrisurados de traços como se o papel fora a minha caverna meu terreiro pessoal em que escrevo minhas rasuras minhas imperfeições como se eu fosse uma chuva diante dos olhos de uma árvore cujo tronco fosse prematuramente arremessado ao chão à relva dos teus cabelos largados pelos degraus de uma mitologia de mim mesmo que escrevo aqui para deixar sementes.

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eu estou dentro eu estou fora ali habito aqui habito tenho pedras nos bolsos o céu está azul o céu está como o meu cômodo como eu mesmo sobre o tapete no frio do início da manhã ainda o sol paira pálido o sol brilha quente por de trás do pálido tudo é frio se aquecendo lá fora existe um universo lá fora o universo se reduz ao azul que envolve o planeta lá fora o universo se converte em terra e ainda mais perto em chão e solo sob o chão onde as raízes plenas vão saciar sua sede lá fora pois é lá fora que o mundo se situa lá fora o azul não é mais do que uma abelha um cigarro uma contusão um giro quântico das diferenças o inconsciente dentro-fora do dia anterior a casa aquela tua casa que está aquém a tua casa este território que antecede o universo você a contempla como eu o contemplo eu e você dentro e fora sob o azul sobre o solo das raízes turvas pelo calcário das antigas manifestações de vida eu mesmo em mim mesmo fechado em mim mesmo aberto em mim mesmo flutuo pelo vácuo para tocá-lo com meus órgãos deslizo pelos ermos sem vento daqueles tubos cósmicos onde transitam os asteróides e toco-os com meus dedos na medida em que o azul do dia se intensifica e o carbono sob minhas raízes se solidifica num amplo broto de luz que habita o interior de uma semente minúscula que germina eu mesmo lá fora meus órgãos sob o fluxo das constelações migratórias e dos caracóis e conchas de mar que existem no microcosmo de um grão de areia sob o sol da manhã quando percebo que acordei de um sonho de um pesadelo em que tudo era eu mesmo sem dentro nem fora e percebo que em mim mesmo sou o fora e sou o dentro agora ou depois que o frio terminar de aquecer meus pés raízes sob a encosta do universo.

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regeneração resposta todo vazio todo cheio perder-se numa floresta ou numa língua perder-se para fugir da circularidade para encontrar novo círculo outro círculo mesmo navegar sob o colosso o osso a vergôntea a sibila o feitiço transmutar fluido a água das coisas que esperam erram acertam escutam resposta caule viga desejo deslizar querer passar a brisa o oco a flora verde terra rubi da terra casca que transluz do branco a luz do sol entre as folhas manhã de névoa manhã de azul celeste despertar do teu lado regeneração resposta todo vazio quase cheio eu você relógios você relógio eu queria matar o tempo e a onda e o eco da presença que dói que chama ignição dos sentidos pela manhã breve pela tarde grave pela noite breve da inclusão da exclusão do estar do partir eu tenho um livro escrito pra você um livro um clichê do amor um livro um tédio quero queimar um livro com você pela manhã grave pela tarde breve pela noite ácida doce eu aqui e você pela casa pelo silêncio todo vazio todo cheio pedida numa floresta muda você falaria o tempo todo sobre o silêncio não mais muda quero tua voz quero teu outro círculo de meu círculo sobre o teu explosão no céu implosão do céu movimento da pele movimento da ausência da pele eu tenho olhos você tem olhos mas eles se fecham eles se abrem sou fogo aquoso fogo de água de terra verde com folha marrom espera certeira errônea do encontro mineral relógio tempo saída de tua circularidade entrada pela noite celeste de teu osso caule sibila feitiço você resposta regeneração

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O que é essa pressão do vazio?…
Entender que um movimento fala ao longe perto, e o que depende, tudo na real depende, da dualidade enquanto isso ter que!
Permitir entrar em contato com a consciência – absolutamente, ciclos, o que é essa voz? Para onde foi essa linguagem?
Eu te observo, eu me observo… mas quando eu sou como eu sou, sou um rio consciente, muito intenso, saca? E é tudo absolutamente memorial, memorial…
Como eu poderia perdoar? Quando tudo que eu tenho é o que eu sinto: miragem de nexos interiores-exteriores sobrevindo, sobrevindo no sentido… a energia do fértil, quando vive desvive.
Eu agora tenho que, de que forma, me erguer?
Mas, pelas manhãs, tudo se reergue, quando acordar é presente…
Como vai você? As vozes ausentes… Eu me pergunto: manhãs.
Eu me lembro quando falo dos ecos, e tudo é uma impressão de coisas que eu deixo de falar.
Cada dia é um dia outro. Muito acontecer nos desvios, nos amplos, nas coisas que se falam no momento: são! Podendo ser!
Sim e sim, estamos simultaneamente ouvindo os sons do nosso diálogo que se interpenetram absolutamente, para ver de certa forma que o que se fale seja cuspido objetivamente.
Quando a hidra da escrita submerge no silêncio…
Ando ouvindo ruídos, sons de rumos…
Eu também preciso do outro na minha presença, talvez…
Tampouco eu! Eu giro, giro em torno dos círculos infindos de fogo e das muitas ruínas da projeção.
As coisas que marejam o silêncio de azul, nas dimensões do complexo em que nós estamos aqui.
Corpo caminhando pela rua ou pela cama de uma pele sob a brisa do mistério que se interpenetra com os muitos níveis do rolê da vida!
E o que acontece quando a quentura do frio se depara com a conscientização demasiada do vazio?
Mas em tudo há uma falta de nossas presenças, bem aí no gesto…
E estamos fortes, eu sei! Quem a gente pega, o alto do som que a gente coloca, o óleo das miniaturas do incenso sobre a sombra, da respiração que me percebe corpo a corpo, o contato entre todas as coisas que ou sim ou não, mas, não importa, se aceitando, não importa em qual direção. Corpos que se movem pelo meio do mar.
Inclusive! Eu assisti o documentário da transição! Quando o oceano se derramou pela espera e eu em casa, eu que não estava em casa, ali no meio do mar, com ela, eu, com elas, eu não sei, eu sei…
O ritual sobreveio quando vi que eu poderia apenas lidar com o ar, com o cuidado em termos de coisas, simplesmente, acontecendo, no final das contas.
Eu vejo que estou aqui porque e desde que o tempo das coisas é impermanente e interrompe com o sentido.
Eu sei do átimo do segundo das luzes que entram pela tarde, acontecem, dentro da paragem que é estar vivo.