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eu te desejo uma palavra como a que escutei hoje, entre muitas outras palavras, fluindo através da água, das asas e das folhas que a correnteza trazia, que semelham a nossos rostos se mirando, dentro do tempo. palavras xamãnicas envoltas em música, expondo-me a real ilusão de mim mesmo com toda simplicidade pela qual o afeto transforma qualquer sujeição ao mundo. não há sujeito que não se permute com fenômenos orgânicos como o lagarto, a erva e o sol. hoje ou amanhã, o toque do outro deve alterar todo castelo ausente da vaidade e toda memória futura de meu sofrimento, como um relâmpago atravessa o ar, como um gesto sonoro encerra uma dúvida sobre o silêncio. uma palavra em que esteja contidos o silêncio e o canto, origem do abismo entre a negação de si e o beijo dos que não precisam da linguagem, e podem ser totais. uma palavra que nos conecte à experiência da alma para além do intelecto adoecido pelo excesso ou pela perda total de si. eu te desejo esta palavra que te transportará suavemente através dos objetos e dos corpos, rumo à tua própria alma e à alma de todos. esta palavra que envolve o eu e o outro como água derramada sobre a terra, ou como lenha ressecada transformando-se em vapor.