flux4

eu escrevo aqui para deixar aqui as sementes das coisas que me levam a escrever que me definem aqui que me intoxicam aqui sempre que escrever é não conter um silêncio demasiado rico em harmonia sempre que houver uma fonte que dista mais dos meus mesmos olhos do que uma torre em edificação desmedida e para reter tuas manchas no céu de uma estrutura que decai e para desrepetir essa estrutura sob o véu da noite e vê-la sobrar sobre si e vê-la se decompor sobre as escadarias de um prazer em puro desfazer desde a nascente de uma memória de que fui feito por divindades de que eu repito em mim tais estruturas já com vozes alheias de mim mesmo recompondo-me no instante decisivo o corpóreo instante que precede o afinar-se com o rio com a folha de teu rosto sobre os muros da cidade – que cidade já não possui muros em que eu não possa dependurar-me? eu gostaria de escrever aqui algo como plantas de afeto já prontas plantas de palavras sobre o escuro do outro sobre a claridade do instante das palavras que me derramam sobre você sobre você quando você sobra pelas garras do outro minhas garras possíveis de recobrar pois toda cobrança é desamor e desamor é apenas um instante em que as palavras se interrompem pois o corpo já não cessa de doer pela memória do impacto pela memória dos troncos de árvore que caem prematuros sobre a relva sobre teus cabelos que chovem sobre a sala sobre o quarto que me espera como uma tempestade sobre o peso dos livros sobre o peso do teu toque despido de impacto eu preciso reconstruir em meu próprio corpo a energia dos móveis dos suportes das caixas em que você se manifestaria como uma relíquia de cera que eu sempre manteria perfumada e sob o limite da minha agulha de cobrar minha dívida ao recobrar sua presença sobre o meu fluxo sobre minha pele que um dia você beijou que um dia você perfurou com a tua agulha que na verdade era mais como um novelo à espera de agulha todas essas coisas que eu digo são coisas agora de guardar coisas agora de demolir e guardar seu pó seu resquício miúdo quase invisível senão sob a lupa da lembrança e desde ela fecho todas as portas e gavetas edifico novos muros de cidade ao redor de meu labirinto interior feito por divindades ofuscadas de imagem e elementos de substância ignitiva como o aroma e a ferrugem dos olhos chorões diante do espelho meu espelho meu inebriados de brisa e rebrisurados de traços como se o papel fora a minha caverna meu terreiro pessoal em que escrevo minhas rasuras minhas imperfeições como se eu fosse uma chuva diante dos olhos de uma árvore cujo tronco fosse prematuramente arremessado ao chão à relva dos teus cabelos largados pelos degraus de uma mitologia de mim mesmo que escrevo aqui para deixar sementes.

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