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eu escrevo aqui para deixar aqui as sementes das coisas que me levam a escrever que me definem aqui que me intoxicam aqui sempre que escrever é não conter um silêncio demasiado rico em harmonia sempre que houver uma fonte que dista mais dos meus mesmos olhos do que uma torre em edificação desmedida e para reter tuas manchas no céu de uma estrutura que decai e para desrepetir essa estrutura sob o véu da noite e vê-la sobrar sobre si e vê-la se decompor sobre as escadarias de um prazer em puro desfazer desde a nascente de uma memória de que fui feito por divindades de que eu repito em mim tais estruturas já com vozes alheias de mim mesmo recompondo-me no instante decisivo o corpóreo instante que precede o afinar-se com o rio com a folha de teu rosto sobre os muros da cidade – que cidade já não possui muros em que eu não possa dependurar-me? eu gostaria de escrever aqui algo como plantas de afeto já prontas plantas de palavras sobre o escuro do outro sobre a claridade do instante das palavras que me derramam sobre você sobre você quando você sobra pelas garras do outro minhas garras possíveis de recobrar pois toda cobrança é desamor e desamor é apenas um instante em que as palavras se interrompem pois o corpo já não cessa de doer pela memória do impacto pela memória dos troncos de árvore que caem prematuros sobre a relva sobre teus cabelos que chovem sobre a sala sobre o quarto que me espera como uma tempestade sobre o peso dos livros sobre o peso do teu toque despido de impacto eu preciso reconstruir em meu próprio corpo a energia dos móveis dos suportes das caixas em que você se manifestaria como uma relíquia de cera que eu sempre manteria perfumada e sob o limite da minha agulha de cobrar minha dívida ao recobrar sua presença sobre o meu fluxo sobre minha pele que um dia você beijou que um dia você perfurou com a tua agulha que na verdade era mais como um novelo à espera de agulha todas essas coisas que eu digo são coisas agora de guardar coisas agora de demolir e guardar seu pó seu resquício miúdo quase invisível senão sob a lupa da lembrança e desde ela fecho todas as portas e gavetas edifico novos muros de cidade ao redor de meu labirinto interior feito por divindades ofuscadas de imagem e elementos de substância ignitiva como o aroma e a ferrugem dos olhos chorões diante do espelho meu espelho meu inebriados de brisa e rebrisurados de traços como se o papel fora a minha caverna meu terreiro pessoal em que escrevo minhas rasuras minhas imperfeições como se eu fosse uma chuva diante dos olhos de uma árvore cujo tronco fosse prematuramente arremessado ao chão à relva dos teus cabelos largados pelos degraus de uma mitologia de mim mesmo que escrevo aqui para deixar sementes.

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eu estou dentro eu estou fora ali habito aqui habito tenho pedras nos bolsos o céu está azul o céu está como o meu cômodo como eu mesmo sobre o tapete no frio do início da manhã ainda o sol paira pálido o sol brilha quente por de trás do pálido tudo é frio se aquecendo lá fora existe um universo lá fora o universo se reduz ao azul que envolve o planeta lá fora o universo se converte em terra e ainda mais perto em chão e solo sob o chão onde as raízes plenas vão saciar sua sede lá fora pois é lá fora que o mundo se situa lá fora o azul não é mais do que uma abelha um cigarro uma contusão um giro quântico das diferenças o inconsciente dentro-fora do dia anterior a casa aquela tua casa que está aquém a tua casa este território que antecede o universo você a contempla como eu o contemplo eu e você dentro e fora sob o azul sobre o solo das raízes turvas pelo calcário das antigas manifestações de vida eu mesmo em mim mesmo fechado em mim mesmo aberto em mim mesmo flutuo pelo vácuo para tocá-lo com meus órgãos deslizo pelos ermos sem vento daqueles tubos cósmicos onde transitam os asteróides e toco-os com meus dedos na medida em que o azul do dia se intensifica e o carbono sob minhas raízes se solidifica num amplo broto de luz que habita o interior de uma semente minúscula que germina eu mesmo lá fora meus órgãos sob o fluxo das constelações migratórias e dos caracóis e conchas de mar que existem no microcosmo de um grão de areia sob o sol da manhã quando percebo que acordei de um sonho de um pesadelo em que tudo era eu mesmo sem dentro nem fora e percebo que em mim mesmo sou o fora e sou o dentro agora ou depois que o frio terminar de aquecer meus pés raízes sob a encosta do universo.

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regeneração resposta todo vazio todo cheio perder-se numa floresta ou numa língua perder-se para fugir da circularidade para encontrar novo círculo outro círculo mesmo navegar sob o colosso o osso a vergôntea a sibila o feitiço transmutar fluido a água das coisas que esperam erram acertam escutam resposta caule viga desejo deslizar querer passar a brisa o oco a flora verde terra rubi da terra casca que transluz do branco a luz do sol entre as folhas manhã de névoa manhã de azul celeste despertar do teu lado regeneração resposta todo vazio quase cheio eu você relógios você relógio eu queria matar o tempo e a onda e o eco da presença que dói que chama ignição dos sentidos pela manhã breve pela tarde grave pela noite breve da inclusão da exclusão do estar do partir eu tenho um livro escrito pra você um livro um clichê do amor um livro um tédio quero queimar um livro com você pela manhã grave pela tarde breve pela noite ácida doce eu aqui e você pela casa pelo silêncio todo vazio todo cheio pedida numa floresta muda você falaria o tempo todo sobre o silêncio não mais muda quero tua voz quero teu outro círculo de meu círculo sobre o teu explosão no céu implosão do céu movimento da pele movimento da ausência da pele eu tenho olhos você tem olhos mas eles se fecham eles se abrem sou fogo aquoso fogo de água de terra verde com folha marrom espera certeira errônea do encontro mineral relógio tempo saída de tua circularidade entrada pela noite celeste de teu osso caule sibila feitiço você resposta regeneração