[…]

ar mutável envolve
a pedra sobre a água
desconhecido
adentra o meu sonho
metaforiza o fogo
elabora a imagem
que sinto contigo
me abres um parque
e com mãos mornas
me extrais do vazio
a divindade elemental
contemplo tua presença
pedra sobre a água
fogo em fogo
encontro com o tempo
cintilam ondas negras
ritmos de luz

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[…]

amar novamente, nesta tarde;
você teria a coragem de não culpar sem esmorecer
diante da promessa da noite
um ser no outro quando o outro porvir estranho?
você poderia ter atravessado assim
o solo estranhamente azul daqueles delírios sonoros
sem questionar o teu coração, arriscando teu passo?
assim é o modo com que te tornas pássaro
o canto te seduz para fora do teu abrigo;
quero ir contigo novamente ouvir teu canto-verdade.
todos nós tememos o abrigo abandonado
que deixamos ao outro como uma bomba no tempo;
será tempo de dizer adeus à tarde
e vê-la fluir embora por minhas lágrimas?
para que o peso da confiança não esteja em ti;
amar novamente, nesta tarde
é habitar o coração da fé, ainda que
minhas mãos estejam trêmulas pelo desastre
e nosso encontro aconteça no estrangeiro.
eu respiro sob a força do meu desígnio
de receber no corpo a estranheza do outro
e cessar em mim a reviravolta de si
e inventar para o meu coração um novo absoluto
no renovamento do mar que habita em nossos áridos
e percorrer a estrela do teu olho descalço
na festa que ajusta meus pulsos aos teus.
eu que lamento sobre a mansidão do fim
não mais certo do que é ou não tua calçada
teu limite oculto teu espaço de si tua cercania
teu ventre sob meu rosto enquanto durmo
ou as memórias que criamos agora no sólido
e no profuso vaso afetivo da terra de nós mesmos;
amar novamente, nesta tarde
mais do que a voz que insere o medo no medo
será ouvir a paisagem real do silêncio
enquanto houver tempo para aprender com a dor
o choro místico das coisas imperfeitas
e a celebração da paz no rosto de Buda.

[…]

[…]
mas o que seria seguro dizer senão desde o limite do coração? minha vida por nossa vida? minha morte por nossa morte? todo dizer possível não se contrai sobre esta insegurança? meu coração, único impossível; amar com o coração partido, ou pela metade, não referindo-se como coração, mas como teu semi-coração vivo em mim – por qual tempo? o amor é uma questão de saúde, diante do coração que não há sem o outro; e nos chega através do perdão, reconhecimento de que não foi o outro que partiu o meu coração, foi o meu coração ao dizer meu coração – eu amo, eu vivo
[…]

[…]
eu te dou uma verdade à cada verdade tua; eu fundamento a relação na verdade do amor; a verdade do amor sob a justiça; verdade que repensa a si em alteridade; corte do mesmo sob o gume cirúrgico do outro; eu não escrevo a violência, mas diante dela; perdiz branca nuvem cinza lâmina entre a palavra e o silêncio, e a pergunta de ti; eu sou uma verdade para o silêncio; eu amo dormir desentrelaçado em ti; diz-me teu absurdo em silêncio; eu te habito em nós, desde teu primeiro e último sussurro, ao acordar e ao dormir; meu sonho contigo é seguro, porque ele dorme bem
[…]

[…]
estou em tua graça
como um homem descalço está
sobre o concreto das trilhas,
estranho orbe sagrado do amor

 

[…]
estou em tua graça
como um homem descalço está
sobre o concreto das trilhas,
estranho orbe sagrado do amor
mão sobre mão
e ramagem verde sobre a noite,
oráculo entre nós
irmãos
[…]

 

[…]

quando estou em silêncio
estou em tua dança
e escuto através de paredes
tua respiração, tua alma viva
quando estou em silêncio
estou oculto, seguro,
mas o que eu estou
é na palavra que te lanço
e recolho em teus
intuitivos gestos;
quem nunca tentou capturar
uma nuvem com os dedos?
respeito a tua experiência
apenas
eu colho das tuas mãos
apenas ouro;
espero que sintas minha mão
acariciando teus olhos
meu amigo de sangue
e lágrima
e presença e abandono;
músico
que me falas do teu coração.

[…]

[…]
se você não pergunta como eu estou, eu não pergunto; se pergunta eu respondo e pergunto; uma pergunta fere o espasmo do silêncio, é menos vivo que a própria vida que antecede a pergunta, e esta apenas é atravessada por nossos olhos que contemplam o mundo em movimento; e eu não pergunto por você, eu não pergunto como você está, eu confio que você está e que você perguntaria caso não estivesse, pois esta seria a tua maior liberdade
[…]

 

[…]
eu aqui agora escrevo a paixão do meu espírito, a voz antiga que me recepciona cada vez que coloco em termo a espinha da linguagem, o jogo de ir contra meu coração e dizer o silêncio da aurora o silêncio dos cristais de aurora quando reclinam-se em meus ombros como doces sinais da vida, como um terço do caminho a mais em cada diálogo, cada expressão sensível da linguagem ou sobre o corpo do meu corpo em tua mente, em meu coração que chora pela justiça entre nós mesmos, amantes do espaço dos olhos teus e da serenidade da canção e dos sonhos ilimitados dos poderes, para movermos nossos dedos em intenção rútila sobre um sol prismado dentro de nossos rostos […]

[…]

[…]

um problema, para qual retornar
uma palavra sobrevive

think about past no more

estou à espera da expressão

a angústia é um carrapato
mas
à gratidão pelo espinho

enquanto existir com o espírito

um pássaro que vai
numa finalidade não-determinante

dois pássaros

oh, minha graciosa não-preocupação
com o que virá a ser

este fogo
nunca se extingue
em ti

estrela dinâmica de teu rosto

[…]

[…]

eu te pergunto o tempo da tua presença
pois te pergunto e isto me reenvia a ti
por este caminho impossível de uma saída
por uma entrada, por um movimento
diante do estático que é perguntar
quando eu poderia apenas experienciar
tua presença em teu rosto morno
como o dom da presença pura
que se obtém de um retorno impossível
porque pergunto e devo perguntar
qual é o teu lugar entre todas as partes
o que te faz suceder em teu próprio corpo
o impulso de abrir tua linguagem a mim
e minha linguagem a ti como um cofre
que acessamos por esquecê-lo
e o coração se torna um cofre do cofre
um dia aberto pela chave impossível
do impulso original de um silêncio.

[…]

 

[…]

vou por meu afeto
te encontrar nesta barreira
de amor em galhos de azul crepúsculo
e trago ali um pensamento singular
das sementes de abril
que trilham signos para além de nós
ou nem chegam a
ser
mas quero que estas palavras
acariciem o rosto eu
te
amo
o nosso
manto de luz o nosso rosto
e a história
de nossos pés descalços
na imensidão da impermanência
nos materializa
um fogo cruza à esquina
e
leva consigo
uma lâmina viva de destruir barreiras
quando no máximo se declama
a esperança
[…]