[…]

eu te pergunto o tempo da tua presença
pois te pergunto e isto me reenvia a ti
por este caminho impossível de uma saída
por uma entrada, por um movimento
diante do estático que é perguntar
quando eu poderia apenas experienciar
tua presença em teu rosto morno
como o dom da presença pura
que se obtém de um retorno impossível
porque pergunto e devo perguntar
qual é o teu lugar entre todas as partes
o que te faz suceder em teu próprio corpo
o impulso de abrir tua linguagem a mim
e minha linguagem a ti como um cofre
que acessamos por esquecê-lo
e o coração se torna um cofre do cofre
um dia aberto pela chave impossível
do impulso original de um silêncio.

[…]

 

[…]

vou por meu afeto
te encontrar nesta barreira
de amor em galhos de azul crepúsculo
e trago ali um pensamento singular
das sementes de abril
que trilham signos para além de nós
ou nem chegam a
ser
mas quero que estas palavras
acariciem o rosto eu
te
amo
o nosso
manto de luz o nosso rosto
e a história
de nossos pés descalços
na imensidão da impermanência
nos materializa
um fogo cruza à esquina
e
leva consigo
uma lâmina viva de destruir barreiras
quando no máximo se declama
a esperança
[…]

exercise_ from love to time

From love to time

I have no time to not
love and i had not but now
time to have not time
to love and love i have
now and no time to not
love

But time was taken from me
and from time i was taken
as time and love i have not
now no love or time to
have no time to love time
as love

Now love is to have time
to not have time to not love
and i had it and now i have not
time to love time from time
as it was me taken from love
to time

Do amor ao tempo

Não tenho tempo para não
amar e não tive – somente agora –
tempo para não tê-lo, tempo
para amar, e amor eu tenho
agora, e tempo nenhum para não
amar

Mas o tempo me foi tomado
e do tempo eu fui levado
pois amor e tempo eu não tenho
agora – amor ou tempo para
ter tempo nenhum de amar o tempo
do amor

Amar agora é ter tempo
para não ter tempo de não amar
e eu o tive e agora não tenho
tempo para amar de tempos em tempos
pois fui levado do amor
ao tempo.

flux6

[…]
escrevo este poema este fenômeno poema para ocultar esta aparição vaga como as ondas são vagas em seu fluxo-refluxo e como a inscrição na areia desaparece após uma onda e outra este nome da aparição também nome da forma do átomo da linguagem para ocultar o real sob a lei do contínuo eu sou no poema para além da inscrição que desfalece na areia pois engulo a água e provo das leis do tempo como o sal infinito disperso nas vagas que me atingem com a linguagem liquefeita do poema em si nada mais que um fenômeno da linguagem desta linguagem esta unidade furta-cor do absurdo que se é quando para além de um tempo motor abstrato como aquele dos geômetras ou das monótonas leituras métricas quando para aquém de mim mesmo me exponho ao espelho mas com o rosto voltado para fora às voltas com o fora pleno de fora meu rosto embriagado de palavras reunido em torno delas para soá-las para silenciar-me nelas que possuem voz expressa voz patética do sensível presas a mim eu que sou do poema o entre e estou no poema entre tudo que vejo todas as coisas todo enfim este poema que escrevo este fenômeno poema para revelar o apagamento saturado como o branco do sol em sua imóvel feição e como o traço na memória resplandece ante o maciço sol unívoco sem nome em puro fluxo e vivente
[…]

flux5

eu te desejo uma palavra como a que escutei hoje, entre muitas outras palavras, fluindo através da água, das asas e das folhas que a correnteza trazia, que semelham a nossos rostos se mirando, dentro do tempo. palavras xamãnicas envoltas em música, expondo-me a real ilusão de mim mesmo com toda simplicidade pela qual o afeto transforma qualquer sujeição ao mundo. não há sujeito que não se permute com fenômenos orgânicos como o lagarto, a erva e o sol. hoje ou amanhã, o toque do outro deve alterar todo castelo ausente da vaidade e toda memória futura de meu sofrimento, como um relâmpago atravessa o ar, como um gesto sonoro encerra uma dúvida sobre o silêncio. uma palavra em que esteja contidos o silêncio e o canto, origem do abismo entre a negação de si e o beijo dos que não precisam da linguagem, e podem ser totais. uma palavra que nos conecte à experiência da alma para além do intelecto adoecido pelo excesso ou pela perda total de si. eu te desejo esta palavra que te transportará suavemente através dos objetos e dos corpos, rumo à tua própria alma e à alma de todos. esta palavra que envolve o eu e o outro como água derramada sobre a terra, ou como lenha ressecada transformando-se em vapor.

flux4

eu escrevo aqui para deixar aqui as sementes das coisas que me levam a escrever que me definem aqui que me intoxicam aqui sempre que escrever é não conter um silêncio demasiado rico em harmonia sempre que houver uma fonte que dista mais dos meus mesmos olhos do que uma torre em edificação desmedida e para reter tuas manchas no céu de uma estrutura que decai e para desrepetir essa estrutura sob o véu da noite e vê-la sobrar sobre si e vê-la se decompor sobre as escadarias de um prazer em puro desfazer desde a nascente de uma memória de que fui feito por divindades de que eu repito em mim tais estruturas já com vozes alheias de mim mesmo recompondo-me no instante decisivo o corpóreo instante que precede o afinar-se com o rio com a folha de teu rosto sobre os muros da cidade – que cidade já não possui muros em que eu não possa dependurar-me? eu gostaria de escrever aqui algo como plantas de afeto já prontas plantas de palavras sobre o escuro do outro sobre a claridade do instante das palavras que me derramam sobre você sobre você quando você sobra pelas garras do outro minhas garras possíveis de recobrar pois toda cobrança é desamor e desamor é apenas um instante em que as palavras se interrompem pois o corpo já não cessa de doer pela memória do impacto pela memória dos troncos de árvore que caem prematuros sobre a relva sobre teus cabelos que chovem sobre a sala sobre o quarto que me espera como uma tempestade sobre o peso dos livros sobre o peso do teu toque despido de impacto eu preciso reconstruir em meu próprio corpo a energia dos móveis dos suportes das caixas em que você se manifestaria como uma relíquia de cera que eu sempre manteria perfumada e sob o limite da minha agulha de cobrar minha dívida ao recobrar sua presença sobre o meu fluxo sobre minha pele que um dia você beijou que um dia você perfurou com a tua agulha que na verdade era mais como um novelo à espera de agulha todas essas coisas que eu digo são coisas agora de guardar coisas agora de demolir e guardar seu pó seu resquício miúdo quase invisível senão sob a lupa da lembrança e desde ela fecho todas as portas e gavetas edifico novos muros de cidade ao redor de meu labirinto interior feito por divindades ofuscadas de imagem e elementos de substância ignitiva como o aroma e a ferrugem dos olhos chorões diante do espelho meu espelho meu inebriados de brisa e rebrisurados de traços como se o papel fora a minha caverna meu terreiro pessoal em que escrevo minhas rasuras minhas imperfeições como se eu fosse uma chuva diante dos olhos de uma árvore cujo tronco fosse prematuramente arremessado ao chão à relva dos teus cabelos largados pelos degraus de uma mitologia de mim mesmo que escrevo aqui para deixar sementes.