31/12/2011
Caros Leitores,
O BLOG Caderno da Mais Alta Torre foi transferido para outro domínio: www.cadernodamaisaltatorre.blogspot.com
Todas as futuras atualizações serão feitas neste novo blog, portanto as atividades neste endereço estão suspensas.
Porém, os leitores ainda poderão consultar os textos que aqui foram postados no período de um ano.
Estão todos convidados a conhecer o novo blog do Caderno da Mais Alta Torre, que está de cara nova e abrigará novos textos.
WWW.CADERNODAMAISALTATORRE.BLOGSPOT.COM
Muito Obrigado!
João Foti
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31/12/2011
”– Cette soif qui te fit géant,
Jusqu’à l’Être exalte l’étrange
Toute-Puissance du Néant!”
(Paul Valéry)
Palavra, que fala
coisa ao Nada,
corpo de sabedoria, às
lágrimas-sem-prole,
ofício de entrosar
imagens nos olhos, faz
a pele de claridade troar,
alva como da serpente
o duplo arco-íris, língua
– no que dorme, entreluz
sem lume, à demora
do universo ao ritmo –
serpensamento, a ser.
30.12.11
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17/12/2011
a ceia de átomos em sons, durante,
venera-me o encanto, ateia fogo
severo da lua à casa opaca
pelas ondulantes fraquezas, ó, mãos,
palpitantes: era o abismo a carne
inquieta, do mar as delícias.
coração meu, pleno em sonolência,
derramava o fragor das pétalas
e surgia ao vasto segredo.
a dama voa à brisa perolada,
tal visão como fórmula recriada,
como devaneio supremo à estação
fundia-me à ninfa mais desejada
que sangrava açafrão, douta morada,
e minha vigília à morte revelava.
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17/12/2011
E começo da fonte a dinâmica,
um projétil arremesso à busca
em louvor-espelho às águas.
célebre, que o perdoe, mãos minhas,
as lágrimas insensatas, o horror
de obscura teia em céu ausente.
que comova-se a mente esparsa
qual sombra dista à folha
fechada, inexata prontidão.
para que os versos re-contínuos
tal nudez aclamem das almas,
na branca terra nasce o ponto
de prata que a noite violácea
em fel arremata, Vênus incessante
em sonhos debruçada: transagora.
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13/12/2011
brilho à travessia, pó
da névoa, hidra-solidão.
que desfaça o ar
como se beijasse o silêncio,
nossa boca.
nestes termos, salto-te,
ator de atar o ato!
o plenilúnio d’amor-te
em línguas delira o lilás
- lilás, tua pele.
esqueces de mim
como um dia para outro,
não me espera
tua beleza.
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11/12/2011

É no mambembe, meu dengo
que abre a roda de bamba
que bamboleio na moda
no matagal.
Sambando bambo
a zabumba e o mamulengo
de banda da boia fria
no bando de bamba já
Capibaribe é terreno
terra de bamba é muamba
cê tá com medo, morena
de rebolá?
Samba na praia, no beco
no azulejo, batuque
de boa viagem, meu dengo
do boi bumbá.
Inté bauxita, pirita
meio do dia, diamante
monte de pedra, pedreira
vamo escavá.
Varando a noite
a vidraça, do boi da noite
da praça, na quebradeira
esroscada do bafafá.
Fazendo troça, palhoça
palha de milho é minhoca
que cai na terra, me leva
me faz dançar.
E no som limpo
da lima de tangerina
de roda, da roda-viva
dá sorte ao meu congá.
Campo de trigo é beleza
tal qual minha nega Tereza,
é eu mais ela, banguela
a rebolar.
Se vai a noite, morena
no mel dos olhos, melado
samba de lado, molhado
tal qual beijar.
E a lua cresce, criança
e vai-se vênus na dança
da campainha, sozinha
vai cozinhar.
E nesse canto, te encontro
cantando alto, planalto
sou dessa ilha, brasília
de outro lugar.
E me despeço, arremesso
samba de bamba, ruanda
inda te lembro
minha sina é viajar.
Até um dia o diabo
virar roseira, faceira
faca de gume cegado
vai te cortar.
Saio de lado, sem medo
na tua saia, morena
e nesta cena embolada
vamos dançar.
E o mundo inteiro desliza
na corda bamba do samba
caatinga, agreste, cerrado
eu vou cantar.
Siriguela, a goela
que engole a sorte
da moça que me amassa
é madeira que cheiro dá.
Seria a dança o serrote
que serra o beijo
que vejo na minha boca
a ciranda silenciar.
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10/12/2011
vai à curva e volve
a ponte o espasmo,
mira, atua o voo
da folha-espectro.
o início é nome
de rua que finda.
algo soma-se à lua,
outro orbe explosivo.
vaga, áurea palavra
de corte invisível,
antes o lírio, ruma
o negrume estelar.
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05/12/2011

Pólis que molda-se no vento
como um desenho-de-verbo
- ave-pólis cravada na terra.
habitantes que sonham-se jovens
no Incompleto desta plana poesia,
retrato de cabeças – performam-se.
ouço das pedras a chuva, medita
o tempo que me confunde
eternamente – águas sem destino.
velhas esquinas nascem amanhã,
aqui se faz o certo e a vida,
recria-se uma espaçonave outra.
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03/12/2011

Na cidade onde vivo,
chamam-lhe cidade
três frutas atravessadas
à porta de saltar o lixo.
como dunas muito antigas,
aroma de boca morta,
que aqui já não residem,
dunas de outros.
as ruas são altas
na viva cidade de meus olhos,
onde nenhum pássaro
possui plumas,
onde nenhum pássaro
é chamado de cidade,
onde nenhum sonho
é mais alto que o lixo.
na cidade onde durmo,
são roseiras o frágil sono
das frutas, quando espadas
que atravessam dunas.
vemos o verde podre
no sono das ruas,
cidade frutífera
versada pelo abandono.
os espaços cantam pássaros,
na cidade onde se vive
à espera d’aurora
em ruas de lixo.
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02/12/2011

fere na dor a cidade
que sobrevive: incolor.
permite-me o pulsar
com lágrimas perdidas,
sob ruas tóxicas,
em que morre infeliz
o poema da cidade
atravessada.
quero ser-me eixo
para a dor, com efeito,
por tema.
pouco há trilhos,
a história faz-te
em alamedas;
a cidade é sem sujeito
- insiste no louvor
da morte cega – impura,
qual a doença
das ruas é menor
que o urbanismo
dilatado,
silenciai, sonhadores
sozinhos, ante o horror
eterno do entorno;
crêem a pouco saber,
estão mortalmente
deslumbrados.
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01/12/2011
Édipo-nos: homem qu’enigma-se.
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18/11/2011

escreveria – ainda que
da orquídea o bulbo
seja um belo estádio
- sob outras razões.
importa – antes,
que a mim para lá
transportava, infante
- a razão.
à manhã inimiga
- sobre dez sábados
em céu platinado
- me deslizava.
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17/11/2011

da memória – nós
cegos à escuridão,
um fio separo do
novelo, que solto
parece-me emaranhado.
o liberto, que se desfaça
entre os dedos, vagaroso
de medos.
do verde ferve
a lama pulsante,
azul como cheiro
de limas;
palmas entreabertas
que me atravessa
toda a água.
agora nas mãos
úmidas, caminha
por mim, serpente.
tem o macio
o fio de longo
rio.
as águas não sei
se subitamente
nascem, ou fluem
para mim.
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15/11/2011

cismas ao tremor
em procissão branca,
acima, luz,
colores à tela-pedra
ladainhas e lagos,
abaixo, o sol
enlirizas o entre-azul
à robusta mulher
fundes, retiras a pedra,
funda matéria,
mergulhas, pedra-sol,
riacho de ventre,
respiras à clave nítida, a estrela
moldas,
eterna barca, o ritmo.
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15/11/2011

amarelas plenitude
à espera concisa de trompetes
farta,
antes, vale consciente
em tessitura,
algo acabe esta mania
impura,
pós-brilho,
antiga face aparente,
em almofadas
mergulhas.
visse o ócio roendo
a carne sem casca
de almas sempre seguras,
a capa
de rubro olho e diábolo
veemente sopras,
ar de lírios
insensatos,
à beira do corte
alegre,
um eclipse psíquico.
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08/11/2011
nada, o espírito, em
calma traz à fuga
ardendo a outra
linha do segredo,
matéria de coletes,
sombras, serenos,
ave disparada dum
carretel de enigmas.
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08/11/2011
chuva, desce, rosa,
um fio-fogo em gotas,
queima, de açafrão
os verdes, feixes, brotos
de luz nublada, côncava
timidez com cera em fúria
à refusão alada o guerreiro
lança pontas-de-pena,
da pedra ao desespero
que efervesce na luz
dos pontilhos em chá celeste,
vapor noturno, desértico:
constelações a dormir.
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08/11/2011

algo do homem, corar,
labor de cores, sonos,
amanhã do elemento.
trovar necessário
nalgum cômodo do homem,
a reaver estrelas,
de única vida, ama,
assim gemendo: cora
de encontro à casa,
treme este abismo,
uma escura presença,
rostos de pele frutada
como se em rósea pureza,
ao que é preciso: corar,
vãos e flautas, meios.
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03/11/2011

quando ouço da vida uma jura,
outra rosa violina-me rara e
aguçada, jaz de melodiosa tez
em cordas, feixes, sincronia.
fulgem – o ângulo – cabelo e voz
aberto à concha o vasto campo
de escombros sem direção – caracol.
raízes de orvalho, ouro e clavas
vêem tua pupila antes aurorada
em marcas de não-razão, estrela.
reino de bosque esvaziado, perfume
e folclore nomeiam casas de mim, tuas,
em aldeias de lua terrena, moradas.
(imagem. van gogh – “amendoeiro em flor” – 1890)
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01/11/2011

Defumai a demora, quadricular
gesto revolvido do oco ser-se
estrábico, em solas, calmarias.
Inscreves amêndoas, o sol seco
à flora traz junto: pendor, poeta
das naves de couro, passadiço,
eternas no ventre homérico; nó
em funda copa, transluzes dedos
a em si partejar pétalas, sinal.
Oh, sorte ofertada aos ouvidos,
traga junto o fazer desesperos,
onde reina e jaz a ponte viva,
salga o ar destes orifícios serpes,
antes do agora, calce em coisas
tua pata, augusta memória – cega.
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31/10/2011

Se existe o amor – o reencontro
é pai, seus filhos são
todos partes que brincam,
a criança ama sem saber.
Algo não-dizível, todo o filho
é um reencontro, o amor
também o é numa criança,
como a poesia assim.
Toda chuva, nenhuma
é choro que mora no amor
em nuvens açucaradas
sobre uma cabeça agora adulta.
Se existe o amor – amarelece
como derrama-se um pêssego
nos ombros da mulher amada,
verte a chuva em mil crianças.
Só tenho um desejo – na vida
de agora, meu grito de amor
que estanca flores, insígnia
crescente, demasiada fruta.
Digo adeus para amar-te,
mais que o frio o pólo,
mais que o sabor os olhos,
tanto mais, da arte decolo.
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31/10/2011

I
Deitas o lume, cabeça ergue de oliva, outrora
reabres tal de azul o tracejo, ribombas em gritos
a humilde máscara estelar em face divina, sobrevoas.
Volume, amplitude que ofende as águas celestes,
carmim detido no objeto que adota o verão
nos raios de Jove, galhos do destino, todos a ferir.
II
Tanto de palavras como um roupão virgem, que a Vênus
vê correndo a ti nua, censura de sangue, flechas vindo de fora
em desigual sentença atravessam o Aqueronte, pavão majestoso,
indo a delicado esmo sempre às traves da madrugada, bramindo
enfim tua doce morada com ervas que me convidam às trevas,
retumbas pela constelação teus pés alados de negrume.
III
Relincham tuas musas ao louro soar de Eva, rastros
em losangos vibrantes entre os astros-guia do oceano
que comandas em hora difusa pela usura de Posídon
e primas diante dos metais antigos da luzente poesia,
liras aos flancos de mármore, num lago puro de outonos,
mesmo havendo rostos onde turquesas não havia.
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28/10/2011

fios de gozo, amplo
amanhecer por horas.
remos que às margens
tocam delicadamente
as águas sem porquês,
melífluas, apenas berro
em ondas e sossegos,
desvarios de saudade.
e o temor atinge, lança-se
à queda, a margem.
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28/10/2011
condolência ao mestre do Biu, do Cavalo Marinho, que perdeu um ente querido
———————————————————————————

em cores a morte
quando salta os ritmos
e causa nos viventes
a perda, quem perde?
sem cores, quem
o espanto entrevê,
vai ou fica, quem,
em graça, ou luto?
seja a perda talvez
o instante em que tudo
ignora-se e sabe,
puxando o cordão, freio,
quais, entre as cores,
perde o ritmo, deixa-se,
leva e fica em paz?
será ritmo o morrer
ou a doçura apenas
de não ter ficado?
ritmos – vai em pranto
à herança do amor, quem
pulsante que chora
porque vivo – cores?
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28/10/2011

Ao arco da terra saúdas, plena
as paixões curva-de-estrada,
exalas rósea aliança, silhueta
do lírio danças – em lágrima.
Cortês ameixa, têmperas flores
sacias a dor com mães, goiabas
fantasias vilas-de-leite, cestas
ao sono, universos lilases – nadas.
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27/10/2011
[Et la voix ne me vient que par bribes et creuse!
Mais, un jour, fatigue d'avoir en vain tiré,
O Satan, j'ôterai la pierre et me pendrai.]
Stéphane Mallarmé
[E a minha voz me vem aos pedaços e oca!
Mas um dia, cansado desde afã obscuro,
Ó Satã, eu roubo esta pedra e me penduro.]
Tradução de Augusto de Campos

Dentro, a casa da boca
funde-se fora a língua.
As cortinas, percebem –
cordas de harpas muito antigas
remontam – os hóspedes,
arpejam em segredo.
Ventanas cerradas,
há fogo – desenham os olhos,
E vozes em cada chama,
harpas mudas reluzindo
dum navio naufragado,
repousadas.
Olhares são desvios,
mas em versos –
de versos os olhos.
Da brisa, um fiapo de luz
adentra, fumaça da voz
desvela e venda – silencia!
(imagem, van gogh, o quarto, 1889)
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21/10/2011

Talvez sonhar-te – nossa religião.
Beijar-te a face, talvez anoitecer
com minha palma vulcânica – morrer.
Um lado oculto – seio teu
Traçando à golpes de princípio
um tigre na lua eclíptica:
Voz canora sem fala – do beijo.
Tens algemas de música, Pandora,
teus pequenos pulsos, fogos úmidos,
são córregos prometidos.
De teu ventre abarcas o espaço – incenso.
Tua infinita lâmina
donde re-partes ao nada
pinturas, espaçonaves, alforjes,
curiosa retratas – és toda.
Caístes em lágrimas-de-sorriso
e no Nilo de tua boca sobrevivo:
alvo puro, em branco – camaleão.
Sobre um vôo de flamingos
o orvalho desdobras,
a cera e a esfinge,
rubis do sono da língua – somos família.
Sempre, profusas alheia
à beleza de tua tinta
– desperdiças nosso trigo.
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18/10/2011
Reescreves, Apolo, os Vedas.
Ambos os nomes, artista e obra,
lucram pólos dantescos, ébrios.
Concílio com a natureza: forma.
Experimentas no corpo
a vantagem da diferença:
nasce trágico seu canto
num violino de Wagner.
Todo em êxtase – eis o texto.
Os caninos podres de Isolda:
morte e vida de uma lamparina
que leve apunhala o papel.
O amor eleito é sentido
transmigrado na profundeza
voluptuosa dum róseo escarcéu,
topo em que se barulha um algo.
Amizade: a ópera total.
Traz-se fora, interno num drama-soprano:
doce é o não-ser dos carvões,
algo de nó que lacra não-lugares.
[pede à porta; nossa mãe chora]
a língua oprime céus nublados
e descreve roseiras do inferno,
limita o papel num véu onírico.
Vai-se a chuva de flores ornada.
Seios de Ofélia deliram sem agoras:
covas, coveiros e caveiras-arlequins
são colares de um grito: my fool!
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18/10/2011
Cada palavra açoita o poeta,
sua demora aceita
e o centro das coisas olvida
- não sabe de si
nem de coisa alguma.
Cada sílaba,
cada feixe sonoro,
entoa a música proibida.
Dizeres construtores
de castelos, pirâmides,
histórias de máquinas,
planetas vivos em paixão.
A delícia de um elo
sopra galhos de versos
e o destino reinventa-se.
À parte das ternuras
comovem-se as telas,
esferas soterradas
de rochedos sensíveis.
Preciosas imagens
maravilham as paredes
dos salões do paraíso:
firme paciência divina
salteando a inocência,
arte de meus dedos.
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18/10/2011
Festejos, copaíbas, gnus,
profusões de inverno
em cortinas de abismo
revelam orvalho ardente
sobre a pele do coração.
mil sossegos tementes
aos termos da revelação
aprisionam-me no ventre
daqueles benditos ais
vá verão e vá dormir
sobre as colunas alagadas,
antigas construções navegadas
a singrar por entre ilhas do Egeu
mortal canto a lagrimar
ovelhas raptadas pelo lobo-grão,
padecem no extremo céu febril,
átrios de terra árida desconsolada.
feras mitológicas devoram
lençóis & o aroma da ternura
chegando ao Hades hostil,
inebriantes temores causam
à alma de Adão virgens preçes a Eloin.
devora-se o torso Apolíneo
em demoras frente ao elo
que me hasteia ao Sol perdizes.
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18/10/2011
Busca pela questão,
nada se sustenta,
há desconhecimento
o discurso engole a memória.
outra forma mesquinha
que entra de acordo em teoria
mas não vê o não-ver,
o porvir e a angústia,
um outro sem nome?
a teoria endeusa
seus cabelos
sob turnos
castanhos,
aguados…
híbridas canções
se perdem no vão das frases,
das ilhas de poder
massacram o iletrado,
sobrepairam a razão,
tal qual um planeta
a girar e girar e girar e…
nunca finalizará
seu campo de derrota?
indistinta cifra,
cadeado sem cofre,
fogo sem cidade.
choram matas no enquanto
que espero-as chorando
pois nasci no samba
(e um bom samba chora-se)
nasce a bandeira:
é verde e ouro-azul,
ilumina-me para uma fala
cada conquista
declara-me sem voz,
ninguém desconfiará…
legítima liberdade.
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18/10/2011
Poesia (traço, paralelas),
posiciono-me no meio dela:
labor: trato com o sublime.
confunde-se o céu às letras
na esperança de nem ser:
ocos, vãos, um francês
por dez anos ao acaso escapulindo
[parindo gigantesca forma]
retira palavras com silêncio,
clareia imagens, brancos colossos:
margens inteiras “como se”.
não existem pares de página:
dez anos! e eu quero apenas
um desmanche, alguns momentos
tons numa língua desconheçida:
não a fecundarei, deixo o A
a um novo tempo: o pós-poema.
ninguém com a diferença
há de se importar
não observam com atenção
a progressão em travessia,
dolorosa, bendita, maldita:
um naufrágio de prazer:
um graçejo do belo.
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18/10/2011
Morre no poema a verdade
quem, o fim mais triste
de um sufoco expressivo,
deve contornar impulsos
e proferir tangentes?
o poema não mais diz
de todo o amor, nem os buquês,
um lugar da desconfiança,
o que se diz é um contrario.
queres dizer o amor?
não o numa palavra,
num poema língua-pátria.
templos judiados,
lares paradoxais, mutilado:
arte de desdizer o sentido.
intraduzíveis afecções
nos procuram de fora
do limite inscrito, azul.
embala-nos o silêncio
da eternidade fosca,
uma pétala nunca mencionada
flor que dói no amante:
torna-se um despoema.
aquilo sucede o artifício,
alegoriza o mito, a verdade,
adormece quente em pétrea
e relembrada morada: esfínge.
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18/10/2011
Desfaz o arco, uma brisa rodada,
de estribilhos faz marulhos:
fogos desde o amanhã
percorrem arcanjos em três aros
prata fervente, atados em leões,
soam palavras sem letras:
internos à vista, nuvens de peixes
saltam sobre minha voz órfica
sem medos, morangos sonoros
a derramar de tua pele – maio:
sob um compasso uma trilha,
minha pegada desvia-se do espaço
neblina – a canção do esforço,
mas ao menos vão-se as tardes
quando lambo estas pequenices,
tua sede me é madrugada
declamo o córrego de uma ferida,
me chamo inútil artista:
isto é o que visto ante a poesia.
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18/10/2011
No branco uma curva:
grous místicos
sentem a invisível
brisa que fez-se da luz
- uma lembrança
em teu espelho-memória:
por dias a fio
não pude dizer-te
para nenhum estágio do amor
- tolice ébria do arroz
no vinho de tua arrogância:
produzir ingênua
a espera da torre
num crepúsculo de trigo
- encruzilhada da ignorância
e sapiente por um convite:
não poderá libertar-se
sem teu beijo;
e dirá, mais do que o licor
- flores em febre
no escuro, quando rires:
o sol será nascente.
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18/10/2011
Após três chuvas
o monte Elipse
reabre seu cume
um bambu escorrega
sobre a brásea fibra
de um papel
enquanto a letra
incorpora à força
a arte de domar cavalos
deuses e demônios
choram – motivos opostos:
iguarias se perdem
para um, são sossegos
para outro, meia-noite
e retornam desalados
à casa do sol, à cabana
- águas de corpo
filtradas nas pedras
em mosaico, descem do céu
aquelas que prenunciam-se justas.
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18/10/2011
Introduza o buquê
na sensível lua
que melhor seria amar
pois que escondido
melhor é urrar
em prantos.
um cacho de uva
na estrela pura
torneia-me de lírios
para dar-te, ó musa
uma história,
mil tesouros-besouros
de tua beleza dourada
levantai-me
os olhos
para meu crânio
cristalizado
de poesia.
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18/10/2011
Emitentes reais forqueavam
o limbo das esferas de glória,
germinavam luzes emboscadas
no apelo circundando amores
- na calada messiânica do dia-a-dia
flores-de-mar mareadas à brisa
despediam-se do céu,
passados ao meio a timbrar
restos de tempos reencontrados.
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05/10/2011
musa quase muda
quer quase música
por sobre a onda do mar
amarra a capoeira
armada no ar
barimbau
barimba berimba
berimbau,
berimba berimba
berimbau
fé na fé
o ciclo
ínfimo
do infinito
volta ao mundo
cera pra cura
do ferrão d’arraia
padrinho, mestre
abençoa nossa
pedra sonora
move-se
a trompa
como cabaças
freme o arame
num presente
de golpes mortais
esquivas turquesa
anoitecem
e amanhecem baianas.
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25/09/2011
Não mais que um sino
Para o ritmo /
tempo de si /
o rio, o contratempo /
a altura da mágoa /
outrora permissão /
outra /
âmagos de pedra
em nunca ser
eclipse /
o bruto da cor
confecciona-se
ao luto /
dentes da vida
possam adentrar
o reino meu /
apanhar a rede /
belas letras-não
alegres, brancas /
cílios de pena, vãos /
à brisa da ventana
doar a deus
bondosa frase /
arpejo leal
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21/09/2011
A saia-cereja
é rodada pras meninas
que se buscam
explosões acontecem
depois do dia do desfile,
cósmicas
folhas de azuis noturnos
giram ao vento
por detrás
da senhora negra
“até em baixo”
dançam suas madeixas
“até em baixo”
com suas cadeiras de salão
festança musical
por onde dunas e lençóis
universais
carregam os sais
que adoçam o cacuriá
flor de seiva densa
sobre as orelhas
como um hino
rebolado por Oxum
rios que inundam
o interior do terreno
e tambores aguçando
a beleza das chitas
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19/09/2011
oco à cabeça-oca
eco às memórias §
oco as demoras
do não ser oco §
não o eco-oco
o oco-eco, a cabeça §
água oca, sóbria
resto na sombra
de meu ombro oco §
vazio como um eco
um corpo, um copo
um topo, um tópico §
desvazio é o todo
ar que se dança
ar que se chacoalha
ar em que te deito §
vira pouco eco
o encontro, cabeça
oca cabeça oca
cocar de ecos §
eco-oco oco
corda sem ecos
ecos em corda §
eco-cabeça, acorda!
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20/08/2011
paro, o dia começa pela metade.
antes que se possa decidir o oco,
após aquilo que apenas vos despertará,
continuo a repetir meu ritual a saber.
mal engoli folhas de néctar
já pelejo contra meus desejos
que formam imagens impuras, vejo
não com os olhos, mas apurando-as
e dispondo-me sem tê-las escovado
como quase todos fazem, o vil
pertence que é a inconsciência.
vindo portanto exalar nesta cela
que meu ponto de unidade pulsa
mais do que uma grande lula em luta
que captura os desenhos renegados,
palavras já carregadas de história
e os termos que te deixam em brasa
condenam todos eles e os usa:
não careçe de ser portanto flor
de laranjeira vindo ao mar
e verás que sequer provou
da siriguela a letra, e já
quer testar-me, diria o sol daqui
de minha Terra, da China, ou Oslo
que imagino ‘há de esquecer-me’
no tempo em que jurar finalizar-me,
no tempo de um segundo – alarme:
acabar clama, porém não cedo,
logo estarei floreando mais cedo
e que o mundo lá fora durma sendo
o que agora começa em mais um jorro.
de ácida energia vou para a sociedade
volto para a margem que deixa-me os pés.
não compreenderás que envieso a tarde
e a casca de uma Sucupira, ou Sucuri,
que do eterno gozo vai ampliar
mais do que nunca o silêncio
que vos amaldiçoa e liberta,
pela zona áurea em esfingíca ordem,
dessas que arremessam o pavor do barulho
e da desordem. o que se sente, eu sei,
teu pranto, mole, vês quanta molestia
isola de ti teus ossos magos,
vês tua raquítica linguagem?
hermética correspondência, avisas,
ela parte para as terras da pureza;
palavras são simples, eu sei,
são insígnias para amputar escutas,
as quais liberto à surpresa,
basta ouvir-me: com ternura, dizer
“pare de não conter esta natureza!”
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19/08/2011
enquanto deixo o eixo
planto as sílabas de Cila
a esquartejar minhas cabeças
pelos oito estômagos que se revigoram,
e encontro um livro jogado na pedreira
prestes a ser devorado pelo divino
regurgito formoso de Caríbdis, a qual
apenas eu sobrevivi, ao fim do dia.
que o escudo oco da estalagem
cumpra sua lei de reparasitar
aquele que desembainhou o sono
pelas camas ferventes do sacro local,
encantado de fome e deserdado no alto céu,
alforriava-se como um circo lúdico
as primeiras faces da lua murcha.
um alfinete era o seu toque.
bem sabia, a alva regente da luz,
que enquanto por amor devorava cercanias
as coxas tremendas roubava
dos claros gados de Hefestos e faziam
do mergulho nas bigornas um perto
e escuro mar longínquo a derramar-se
em seus familiares grotescos de além-céu,
o Deus manco como uma vareta ao meio,
urdia ao pélago que sacrificasse
sua gente de mil sofrimentos.
depreendo que começo do fecho
e da intensa perfumaria da princesa,
que reside na intersecção entre os seios,
seja internalizada como um coração
desafiado por uma criança, uma emoção
bestial, ausentar-se cabe aos deuses.
oeste à frente do imenso destino
e vou-me no aroma que deixa em rastro
a maneira suprema de comer ambrosias.
o canto de minha treva-lírio
do jogral que reitera obras feitas
e pela intensa paixão que alegra mortes
vê por minhas asas o igualar-te a um símbolo
e da pedreira vasculho o sol a derreter-se
e a esperar mais por um suco de orgulho
do que a compreensão destas letras reverberantes,
quando o sossego do mar for mais infante
do que morar na de Hades mansão silente.
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02/08/2011
Hoje é dia de santos!
quisera flores beijar
a pele-lira próxima
de uma coxa boa.
querer um poema
é afastá-lo de um;
como diagnosticar
versos à distância.
neste vira-ser
o vigor se deixa
pela úlcera ou flor
à verossimilhança.
muro-poema, nasce
e impede, implora,
minha passagem;
meu poema é ruim.
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02/08/2011
Na gestação-planta do apelo
o sol trapaceou em zelo aberto,
confiante ao aceitar dos firmes nós
os ombros vastos que lambem o porto
do satélite Egeu lançado às congregações.
desmoronam povos ao submeter do Peleio
à deusa de braços em pérola inflamada:
um pavor apartado n’útero materno
– histórica fusão entre deuses e setas.
tal assembléia olímpica jurou barreira
no silêncio-ventania da noite frugal,
chamuscada e surrada, em véus de maio.
pelo indivisível ferro das guirlandas sacras
o longínquo deus de pés alados em conluio
fez entardecer os domínios perversos do sol
e sua saraivada de víboras devorou a tez
solitária do supremo amante a chorar,
ordenando aos leões, filhos de elmo raso,
que estancassem a vil tarefa da glória.
logo conjuraram os planetas raios de guerra
comprimindo nuvens de poeira rubra
sobre a Ilión avistada numa profecia recente,
entrecortada por matas de flancos dilatados,
em fuga por rígidos troncos de castanheira
à luz da espera ao barqueiro do sono eterno.
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02/08/2011
De profunda terra alheia,
marreta bate-me contra o leste
vasto das correntes de ar,
esfumando algo sem brasa,
reavendo das metades a soma,
lendo a missa dos santos.
implora asilo contornado
ao espaço das letras,
em valor de simulacro,
infância incumbida:
(folhas do pé de elefantes
vertem gás e calor
dos sóis em gelo convertido)
sob raízes de úmida escavação,
fazia algo da penumbra
o conforto do sujeito,
misteriosamente dilacerado
no mel do repouso, enquanto
insetos de rara beleza queimavam
suas antenas no trovão da morte,
como numa inscrição de amêndoa
cravada no peito deste papiro.
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02/08/2011
teorizarão pensamentos
se eu por descuido divino
circunscrever-lhes sob
as geleiras de luz
do inferno?
ora, é tanta predição turquesa
já praticada que nas botas
de um diábolo vejo
o futuro de meu corpo.
jarro sentimental:
um ferrão de edema rígido
pairando no anil petulante
deste universo diurno
que é minha triste noite.
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02/08/2011
com poemas por emas ouviram
o meu chapéu sobre Andaluzia,
fiz-me sob as estrelas:
películas compatriotas
isolavam meu anjo do extermínio.
presságios ao sabor de feijoada.
o almoço era de domingo
com a presença de Salvador, Luís, Frederico,
enfisemados de realidade,
a compor temas que fizeram
tremer o relevo de meu chá.
dirão: andava, reluzia, guerreava.
às encenações não davam trela.
nascer é apenas um lamento:
ingênua nádega nua de Quixote,
apoiada na forca, num abismo empanada,
restante dos potes tinteiros e massas,
a moldura do seio de uma bipartida dama
desfazendo chamas em meu vestuário;
devaneio construtor a escapar das páginas.
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02/08/2011
o heróico acasalamento
de uma ruína almíscar
esbraveja contra os graus
da madrugada e me aborda
pela coroa de florescências.
substitui meu ferro em riste
pronto a tombar-te o tato
e desbravar-te a nuca
se a impossível beleza
evaporar na intenção.
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02/08/2011
como foices de águias tigrinas
ardia o parto sobre o solo reunido
dos poros d’água matutina que
do sono pesavam na carne da pétala.
d’amplidão as ouço
em leques de conchas
que sugam as orquídeas
dos galhos marinhos,
gestantes nos ninhos,
e farejam luzes entardecidas
metamorfoseando
ao sabor de meteoros
lagoas de orelha
sem dúvida.
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02/08/2011
Desciam afecções d’água
em curva farta, agreste
de meu rosto empoeirado;
réu oscilante das pálpebras
que me afogam nas teclas
de um piano imaginado.
amo esta destilada fé que dá
v t
e n o
e sabor à história.
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02/08/2011
… imorredouro entrego
meus versos à forja
do outro idêntico,
em leituras brilhantinas
ou afogamentos
de minhas musas;
umedeço a então
pupila da pólvora
que nenhuma válvula
jamais abortou bruta.
tragédia adiantada.
oceano algum me cortina,
numa sala de sal,
por quantos dorsos
a romperem panos em brasa
os solfejos da lua,
a única lua
de minha vida.
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02/08/2011
em legítima renúncia
à criação sensorial
de um visgo improvisado,
no viço da fala
conjurou-se o sol
rachando o palio
azulado que dá espírito
às ideias em labareda,
exonerando aprendizes
da armadilha de figas,
rudimentar invasora
dos esqueletos arfantes,
no momento da procura
pelos melhores gametas.
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02/08/2011
A… porém nunca desalmou
para além da centelha
sua imagem salmão
nesta algema retesa
formato de válvula
que como um cílio
a ser sumariamente
degolado ao medo
faz comparecer
do óleo retorcido
o aposento
embebido
às cavas do sono.
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02/08/2011
Missão ao solar naufrágio
duma Lisboa a velejar
por cascas marítimas.
semeando exílio saudoso
alumiada entre o namoro
da espada e o afoito mar,
Camões madruga no seio
das ondas, qual dom
o leva em asas decisivas
a saciar da sede as letras
numa guerra temperada
a fios de prata e horror.
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02/08/2011
defrontados meus perdidos planos,
ao reconhecer nesta flor primata
um animal oceânico que sente o pranto
dos próprios ossos como arrozes plantados
em joelhos-cipó, na mata do mito,
minha chuvosa cabeça folheada
de tropicalismos fantasmas
coisifica deus para coletar
sua bruma nociva:
o néctar viscoso e adocicado
de uma vida-flauta!
crês nessas imagens
ou ainda mais diluídas estarão
as mentiras de tais altares?
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02/08/2011
no entardecer de um verão moribundo
aparentemente normal,
floresceu e de súbito feneceu
o fruto embrionário – universal,
do calor dos sóis determinado Outono,
que da vida apartou-se receoso e letal,
e que do frio dos tetos baixos
inda ontem se extinguia cálido,
morrendo completamente.
lembrei-me da lisa pedra na fogueira
vaporizando um café camponês:
estimulante amigo.
neste dia de matizes esvaídas,
à destra tentativa de escapulir,
o pó da escuridão regurgitou-se
sobre a cama, em um retrato de mortos
no qual, segundo os sóis da noite ocre,
havia uma carta secreta para mim:
a receita da seiva há de ser recriada
e confinada em galões de sumo doce!
assim, nem rasgo, nem consolo
puderam mais palavrear-se.
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02/08/2011
cá estou eu, sentado
sob a tenda esvoaçante
onde remuge o cafezal,
vendo o preto e o branco
das vacas obsoletas
a ceifar o trigo dos dentes
sobre sinuosos lombos
ao poente deste purgatório,
deliberando prosódicas leis
com o chumbo dos cometas.
o eclipse súbito em mercúrio expande
sua massa marroquina de pão,
no avesso bíblico do céu
– canto sudeste do cenário.
onde antes era o vazio
surge minha mão esquerda
opípara de astros.
percebo que há mistério
nesse prateado luar de castigo
ao norte dos jasmins em deformação,
onde murcham os olhos repousados
do macio mar despetalado
nas telhas do chão.
devoraram a si como a cear,
ensangüentadas como são
as flores d’água enquanto
brotavam da oliva muscular.
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02/08/2011
evocarei sobre levezas
auspiciosos mitos
se este áureo firmamento
permitir que assim me expresse:
avistava um invisível signo
das pradarias ao platô,
contornando tuas ancas
durante os lundus
nos arcos lúgubres
da praça em polvorosa.
perderam em desvio o símbolo
de líquido turvo, o dendê ou
a cabeça do acaso da guilhotina
a ver tamanha exaustão.
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02/08/2011
Ergue-se um poeta antropomórfico
por doze ilusórios poros
de quietude em minha pele.
vês à ceifa víboras
exibindo imensidades finas,
doutas najas enamoradas.
destinado à dor
fui convencido, ainda vapor
imaculado.
em derrota fiz
residir nesta memória
petalávras repugnadas,
sorvidas em regresso
à artéria vertical, percorria
campos de vinho
projetando a netuno opalas,
mas difundindo funda
poesia neste hábito.
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02/08/2011
o ato I acontece em pleno sujeito
porque puro no grito da atriz,
o segundo contradiz a atuação
durante a qual me deleito.
eis o ato III levitando
personas excelsas:
perfeitos arautos suspensos
chorando a ferir de deus o peito-rio
negado aos flancos luminescentes.
mais um ato IV caiu da sacada
fora do corpo, celícola, imortal
em desacato ao nobre profeta
– vinténs mendigos – dos quadris
diz o quinto, a gozar-me às putas
na missão de miasma suave:
encerrar o espetáculo nu
num’asa de clave.
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02/08/2011
Após o balido algoz e bandido
do sono desperto-me
aos mil estiletes carnívoros
na escura fumaça do dia;
o que vejo no horizonte?
cães como carvões
a roubarem-me a luz
e a virgem com suas orelhas
seduz aos beijos a lua que nascia,
com correntes de dentes nas bocas,
hálito de docas azulado
de pérolas frias.
ó senhora da estalagem
em que mais cedo eu bebia,
veja as presas de tua morte alada
nesta leoa que a ti vem álacre e esguia;
o espírito cria, o dia diverte,
com o lado da mão ardendo
na espada, advertiu,
a chorar salsas lágrimas de montanha;
não menos que eu a navegar
no oceano de meu corpo.
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02/08/2011
Evoco tais plumas
ao pó da taça oca
que do mausoléu
alça bons augúrios,
se o firmamento
permitir que assim
me expresse o alarme:
escrevia o signo louco
a contornar recifes e
porcelanas borradas,
no desvio ao brinde
que desvela sombras
ao acaso da obra:
exausta estrela.
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02/08/2011
Cultivasse algo de justo sumário,
compondo mortíferas alianças,
o carnaval das chuvas passaria.
(uma infusão
de méis e losnas
reaquecida)
navegasse o bojo dum acorde
permanentemente pálido,
longe, apétalo, afirmaria
tua polpa,
imaginários,
apodrecida.
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02/08/2011
tumulo de soltas valsas, hélices solares,
âmagos de palha fina fulgurante,
cânticos de portas abissais aos pares,
tudo revolveu nas câmaras do amante.
desperdiçarei pouco vosso tempo
e erguerei quantidade formosa
de incisivo e perpétuo lamento
desde que partistes em morte rosa.
exemplar caso de extrema indulgencia
foi meu pesar sobre tu invisível,
como uma válvula que treme a aparência
e faz separar dois seres ambíguos.
riacho de influência, novo mundo,
volto para a segurança da ausência,
distante por léguas de teu profundo,
cigana perversa de água não-benta.
soam os pássaros sobre um novelo
que ficou incompleto, sem enredo,
pois sozinha me trocastes por medo
legando-me tamanha matéria, cedo.
beleza que mata, tritura o possível,
figura amamentada no cosmos, na essência,
abandona-me às palavras como um horrível
e delicado símbolo de tua incandescência.
deixa-me inflado com as notas sem cria
para navegar sem sapatos num barco de ópio,
ao trabalho hercúleo por uma mercadoria
perecida nas profundezas do mar Cáspio.
ruminante, afogado sacripanta viajante,
devotado, quase erguendo sal como ouro,
invocava das páginas um gênio falante
que das chamas reencarnava sua alma num touro.
era eu dono do brônzeo cantil de líquido anis,
no deserto de um espelho engasgado de gênese,
escutando receitas da boca de Mefistófeles,
que paterno minha alma vibrava qual uma fênix.
alerta teu império que permanecerás longe
enquanto remediar-te com a doçura das horas
escalando a galáxia na rocha dos montes
que afirmas tão primeira quando choras
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02/08/2011
sou poeta, mas apenas canto em norte
meus não-temas estreitos de algum temor.
afasta-te de saber que meu tema é a morte,
isso não é de escrever, sentir, seja o que for.
digo não, nem rancor, nem castidade
ou pólvoras a mim representarão;
escrevo para fugir da solitária idade
ou para inscrevê-las na média estação.
nos rodeios de meu traço, chuva bombardeada
vem esticar-me ao sacro-silêncio eterno
e lhes jurar numa emoção desconfortada
que, quando me for, liberto-me do elo.
escrevo a vós no inverno para que duvidem
dos autores, fornecedores de razão,
e esqueçam-se da cavalgada firme
por eles conduzida, uma vez à escuridão.
tenho, além da dor, todas as doses
que utilizo no calor do inverno primeiro
e, sublime, reconheço o dom das vozes
na eternidade da caldeira ao tempero.
com freqüência, como padrinhos, ronco,
mísero à infância na palma da mão,
ensino-me a poesia sem o desmonte
da fábula de minha própria recordação.
manejo nesta terra-página algo de água
e a memória escolhe-me como benfeitor.
apreciem, pois, contemplem o preenchido nada,
arremessem suas fraquezas, vistam-me, por favor!
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02/08/2011
quem faz ater nas mágoas arremedando
de tal maneira o quê este signo lhe suscita,
quando a mirar-me rastejando, em guerra,
infra-estruturas a equacionar se precipita
à minúcia de tua infestada ruptura para
orbitar de um conselho qualquer à fita
mais precisa a horizontear salvadora
o abismo do rincão de ovulares, aflita.
teriam os ramos tamanha causa sensível
para minha caixa protetora de pianos-nervo,
alhures bastardas, torturar até quedar-se enfermo
no espinhoso cabedal de um adultério risível?
se como marte não lhes alcanço
a argumentar sobre teus planos,
como um amo rico e perverso amo,
do silêncio à sultanatos, puro, descanso.
encachaçado de poesia e frutíferas abertas,
a coisa amarga de tal rizoma gomoso sugas,
ó mosca-coisa nos cozidos tachos de éguas,
nem o teu lugar no céu te acobertará as fugas.
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02/08/2011
roseadas de ódio, todas que auroram a floricultura,
disfarçam que não choram, sob a cama, em camadas.
por quase alguns segundos vivem a semeadura
destas flores que não entendo, simples, desfiadas.
me provocam gratuitamente, gênios do feminino.
basta saber que estão tentando abocanhar-me,
mas não preciso de ninguém para amparar-me…
sou feito daqueles que preferem ficar neptuninos.
remoendo o espelho do quarto, nuas como cabras
com bebidas e cadernos devotos às canções do imo,
repeliam os versos do deslumbre, damas macabras,
sabendo que renitente por seus lábios peregrino.
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02/08/2011
deveria me erguer desta montanha
a ecoar minha voz pelas quebras:
escorpianas, incongruência e façanha,
elegeis tudo o que desconheço, trevas!
que a carruagem do espinho sobreviva
ao adverso e demonstre que atravessa
continentais existências, rezas a Shiva,
condenada ao pagamento de robustas verbas:
por ter nascido com o dom de provar veneno,
bustos, narizes, nunca serão melhor esculpidos
que por esses pobres coitados, os serenos
que nunca chegarão a tornar-se bandidos,
até mesmo a compilar duas épicas sentimentais,
fora os desprovidos dessa singular habilidade…
com o fundo dos olhos falam eles de beleza…
de tiranas que muitas vezes são deslealdade.
anteparaíso, de onde tudo é libertar cor
se dar por convencido antes era preciso,
era aguerrido das varandas velho o rancor
por não compreender, rastejando, conciso.
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02/08/2011
o que dobra tua mandala de retalhos
- prisma desconfiado e condutor -
será o encontro de nossos atalhos,
entes de um mesmo ser progenitor?
de tua vida não mais lhe pertenço,
amordaçado cão de intermitente avesso.
destilando tutelas de sobrevivência
fiz projetar tua insensata diligência.
para enlouquecer o teu acaso…
enlouquecer teu acaso…
quando enfim transbordar-me os cravos
restará somente da gruta tua silhueta
contornando tuas ânsias por ti mesma,
respirando a poesia, revirando a ampulheta…
e terei assim regressado às odes, às urnas
ao desfolhar do tal oriente de meu corpo,
qual sombra adormece às pedras satúrnias
na metade ocidental de um escrito oco…
a perdurar paixões num cristal de coco…
respirando a poesia, revirando a ampulheta…
enlouquecendo teu acaso, a desferir-te um soco…
minhas sinceras fatias estão postas à mesa.
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02/08/2011
um contrafeito moinho habitava a velha cidade
de túneis a esmagar da utopia rasa o belo,
que do altivo empreito e imaculada realidade
eu assistia nos filmes deslocados de amarelo…
ventosidade… vento…
como não empurrar a porta e ver-te não morta, mas
vara de sombra que num busto paira à minha porta
em retidão sigilosa, a encentrar cultuados afazeres,
empobrecida de hinos, dá sorte ao limbo dos seres.
és algo alto à austera ira de capuz…
entretanto o trote traumatizou-te,
tuas vestimentas de taturanas tingidas
de um revestimento cíclico, dos relógios e muros,
a alfinetar tua dorsal com fragmentadiços urros.
que se há de fazer… é o futuro:
não se dizer, não ser seguro…
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02/08/2011
raras pontas a surgir de meu couro
reagem à lama engolida de um templo
- estômagos extrapolados de touros
encerram-se vis em favos de vento
e nas golas manchadas do queijo
das tortilhas de cicuta, o excremento.
agradaria os deuses o cessar dos sacrifícios
se libertássemos algumas vacas e almas do amor,
ou, ainda, aprofundar-mo-nos no ofício
que arpeja discreto e acalma tanta dor?
posso desbravar-te com lâminas e travas.
de meu esforço para oferecer-te louvor usas
tua malícia retirada de uma capital alta e vasta,
posto da prostração perdida, túmulo de musas.
eliminas a mentira e a digeres
nestas carnes tão destratadas…
dormes a deglutir les viscéres
dos que adoram se fartar ao vício,
nos locais da aurora em malefício,
à meia-noite, hora marcada,
ora suprema, evacuada.
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02/08/2011
Encenava a dança
de fecundas gemas
resignado e apreensivo,
e no olhar, como o das sirenas,
para cima a contemplar,
vi o trapézio assombroso
que em ato respeitoso
da atriz de testas róseas
fez a minha sobrevoar.
na altura em que fazia
acrobacias palavreadas
no solo era só vertigem, caia de quatro:
“deixem-me voltar”!
corria às escadas, afinada,
se elevava à folia do dia,
enquanto o inverno se desfazia
sob minha sombra a procriar.
meditava no limiar do quadro:
“por obséquio, saia do meu ponto cego!”
à proteína do ato,
à greve de vida do feto,
fizeram de meu corpo um arco
a cantar para os ventos sua épica.
filhos e netos se amontoavam
e adormeciam com seus intelectos
povoados de mitos bravos:
“canta-me senão apavoro-te,
sou tua força, poder e juízo”!
pois bem, discípulos de Sócrates,
cá estou – entediado em meu abismo.
entretanto, mesmo entretido não, camaleão,
furtei-me jamais de uma performance sequer.
assim, espólios do sol de minha letra-chão,
recompensado fui qual os filhos de Javé.
tal que te preencherias de prazer,
em tua bagagem de gozo, exaurida
e terás, por fim, o mais alto trapézio,
contudo, que o tenhas bem absorvido.
convalescia minha esquerda espádua
em concordância aos termos promovidos.
após tanto, tamanhas foram as lágrimas fátuas
a pagar minhas fortunas a bandidos.
arrancava eu talos como bilheterias ímpias,
talentos mórbidos, mastros de gente limpa;
como tal criatura insuspeita e pragmática
em seus mortais quádruplos, performática.
e assim, no último dia, era extraído
antes do sono, seu próprio crânio
caindo exato nas frontes aturdidas,
fremindo eixos de traquéias rompidas
com a perfeição de um mestre errôneo.
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02/08/2011
narro, assim, já submetido
ao temor de morrer em vão,
que ‘em vão’ não é meu sentido
e pranto acasalo ao coração.
terei sorte e desapego
para curar as injúrias
do espírito que aleijo?
em curvas de agriculturas
e em desvarios de manchado porte,
sustenidos reabrem de ternuras
suas oferendas e prometem cortes
na esperanç’ávida da nomenclatura.
sem o ímpeto: houvesse deus
pelo sobrado de meu paito
de se enfurecer à mesquinhez
deste menor: “este eu rejeito!”, disse o lorde,
elegendo as famílias ideológicas
chego à conclusão de meu esvaziamento,
tão aberto que cair-se-ia no solo
como um adubo de generoso provimento
para cumprir sua missão aos povos.
tentava ocupar-me, por conseguinte,
de felicidades… mas pensar exige requinte
que se há de fazer, Hades?
imaginando tão dispersa unidade
adiantei-me a embaraçar dívidas
que me dividiam, derrota e vaidade,
e a meu sono regrediam úmidas.
como naus que às índias percorriam
o rubro mar vermelho inda trazendo
os essenciais papiros, rumo à Bahia,
aos quais muito necessito e empreendo,
perambulo em minha maior regalia:
qual espada é embainhada fulgurante
também é minha língua a portuguesa -
que por deidades a viver noutro minguante
sacrificou todos os seus órgãos, por fineza.
(e o que foi senão o gozo,
o estar próximo e final
- doentio e valoroso -
de um poeta anti-social?)
pagou o preço dos homens tirânicos
e de intentos ditirâmbicos
cá estou eu afirmando com coragem,
puro escrevo minha humilde linguagem.
pois que se uso tamanho lívido presente
para minhas nódoas a vós justificar
é porque almejo ser filho valente
que a outros milhões vai se misturar,
outro filho, entrementes, de um grilhão
que por tua adoção está a clamar.
quando nesta letra
decerto eu estiver morto
não serei mais o meu corpo
- da espessura funerária,
base agrária para um caixão:
mais ainda, pois para os vermes
serei raiz no importante pasto e
hei de ocupar disputado espaço
em um armário de segunda mão.
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02/08/2011
Findava a tarde névoa-nada, dormia o berço
muito sereno, a alma do visitador de covas,
como suas uvas soavam, coração denso,
a prolongar-se, após, por suntuosas trovas.
de tanto mar enxergava apenas,
inocente, a minha ignorância.
perdoai esta cegueira e dor,
perdoai minhas páginas brancas,
não as mereço, nada sou.
neste feudo, busco pelas grandezas
que de fino rasgo fazem ode ao meu véu;
também sei que um só pensante na miudeza
tão pouco ofusca de uma revolução o mel.
o pensar, ao lado, derrete o caráter
de cada feixe ruidoso a ornar meu tórax:
na certa, obra de maus fígados, arte,
por arpoeiros legislada, some às horas.
pobre de mim. tão igual a mim.
navego tão breve, convencido
de que atento minha presteza
sobre as atas puras e esculpido
repetidamente anuncio-me a beleza
do brilho matutino, desconhecido.
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02/08/2011
Oliveiras pesam no pomar
– o frio geme.
a intensidade é alheia,
a minguante serenou
condicionando uma possível
posição:
precisou recriar-se
noutros modos.
vejo uma indicação ativa,
– substancial, adjetiva:
verbo do mundo:
aroma verbal,
erva de verbo,
tamanha a ilusão do sentido:
recrio verbos.
se a canção é fuga, signo
– poetai, homensigno!
algo há melhor a se fazer?
alegrai-vos!
pouco significa vosso infinito
agindo sem verbo.
pergunto – como, onde,
qualquer o qual?
“sejamos imperialistas”
da língua deslinguando
ainda que também,
além de aquém
seja o meio.
retornaremos àquela
que eterna pergunta:
o “quê é”.
somente os Deuses poderão
mover-se pela questão.
***
O sentido: centro
ou vai ter no centro?
entre meandros, está
no meão do nada.
saibamos o quando
o quanto antes
que imperfeitamente
se vá à frente,
ou atrás de si, o sagrado do Pai
– a perfeição.
tudo caminha a rumo-nada.
nada, após o signo,
fora o senhor da subjetividade,
antes do verbo.
predições são modos
e modos também agem:
o todo se enuncia
– o sagrado torna-se segredo.
e o segredo em escritura
é ausentar-se do meio,
contorná-lo eternamente,
às margens centrais,
subjetivo à
subjetividade,
à ilusão escrita:
de volta ao meio,
reencontro-me com o sentido
que não dura
– logo significa.
minha voz sua,
suor-falácia que fala,
aproxima-se numa sonata,
fala que se deixa
sem explicar-se,
age e recebe
como a noite
que na superfície prata
de um lago, assim,
reflete-se,
ostenta-se madura
e amadurece.
***
Tudo se começa
e acaba no recomeço…
a vida – aquilo que medeia
a morte,
está no centro, significa:
– homensigno!
o resto é caça,
no deserto se arrasta
e recolhe-se à música
noturna do verbo
mais imóvel do que nunca,
uma espuma,
no chão do centro,
um papel-nuvem.
meu sonhar é sentido sonhado,
sem senha:
sem significado,
sem lenha para foguear,
sem ar para ter madeira,
selvagem, renova-se
para envolver-se no dia,
no sol do jogo
de viver fazendo amor
nas maneiras.
experimentando ser
o verbo, cera ao sol,
“sê por inteiro”.
quem ousa aqui naufragar
é o poeta
– hóspede da língua
– que sonha sonhar no sonho
que sonha desperto.
por um barco singra
riachos de saudade,
derramando a vida
num baú de presença,
doando ao mundo
a eternidade
do silêncio
que nada significa.
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14/07/2011
Pra te dizer do amor,
Tem o branco e o céu
O azul que brilha
na barriga-de-barro
de um sábio pássaro de amarelo;
e me esqueço das cores
que me despertam, como colmeias,
nesta manhã de outras imagens,
para envolver seus ninhos,
seus sonhares, suas danças ao sol
até raiar entonacões puras,
músicas em algum poeta
machucado de ver estrelas
- olhos turvos de mel.
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13/07/2011
Pra te dizer do amor,
Não direi nada.
E até que morras quero que
Confundas ao meu o teu ser,
Não é o sim do mundo,
Se é teu mundo é também meu.
Vê a brincadeira de luz
Queimando a tua paisagem?
Tuas folhas de dançantes ventanias?
Para que saibas, tanto guardo em pouco,
Tanto de ti, o outro. E assim vou.
Reino-feito é minha dúvida, luz da terra.
Meu avesso é isto que derramas?
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12/07/2011
Pra não te dizer do amor,
Que o amigo é antigo,
Sem regras inexiste.
O que me ensina, me deserta;
O que me silencia, me viola
Como uma sinfonia bélica,
Estrondando nas noites de chuva cheia.
E a lua dentro do quarto, do sonho,
De um som tremendo, albina,
Obscura, compondo mórbidos ecos.
E o solar do dia seguinte,
Na água do parto, era jorro.
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11/07/2011
Pra não te dizer do amor,
Atinge montanhas de corpos
A saudação quente dos deuses
Emanando para a natureza,
Cá na terra que as cidades afastaram.
E como um esquecimento tolo,
Uma distração interrompe essa montanha,
Tamanha propriedade de sons,
Romances narrados de tua orelha
Para a minha, atuando em flores tristes,
Se não fossem tal razão para o meu escrevo.
A libertar fenômenos, favoreces
A morte da gente.
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10/07/2011
Pra não te dizer do amor,
Estaria a sós com a poesia,
Mas o outro é o limite.
Estar junto é estar sem poemas,
E para que outra coisa serviriam?
E a quem, senão à saudade,
Serve a idade das palavras?
Não há distância no amor
E é por isso que existe, nestas letras,
Outra dimensão, da violência do mundo,
Outro papel de outro astro,
Fora da sociedade, do falso amor.
O meu já se foi, para ele
Não há mais tempo.
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09/07/2011
bela vida!
compaixão pelos irmãos,
orbito os prazeres, fogos desci
e agora os vejo partirvoltar.
silenciando sinfonias de si
e mentiras de verde macio
de profundeza em uns,
luzes da diabólica déia
esquarteja o centro;
tâmaras do além, amenas, desunidas,
recolho em pratos frios de língua,
invertendo ausências em aparência,
uma canção em tanto teor,
breve beleza corpórea
ó, tamanha cólera…
elementos de um fim
dormirão antes do após
sem ter no fundo
o que é sonho.
virou certeza
tudo que sonha
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09/07/2011
em mim, o segundo,
ou as dunas de mimo,
insossa sandice, sumo,
como lemas salgados,
se gargalha a dar mel,
e os maléficos girassóis
recebem sirenas do dia,
pai com efêmeros pulcros,
no solo sonhado noturno,
encontra chifres rodados
de sonhos num véu soturno,
num segundo de mim
minuosamente finado,
dor que some e teima,
empoça minhas linhas,
esvai-se em sanhas
depois volta, sozinha,
como sólida gema.
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09/07/2011
sem a asa, derrocado
me guiava esgoelado,
qual futuro clamo em antes,
em sulcos de glórias
descontínuas, de nomes
questionando afãs.
anjos do dia jantam
a noite desvertida
e subvertem o fogo
de minha pupilágrima.
ergo a lápide solar
na mais alta lança do real,
ora-mar quer irado,
ora duplo quer prisma,
de miluma deusas;
não compreendem
o meu fazer cintilante
de rastros amanhecidos sem rota,
combate pleno de lâmina,
omitido de chumbo
à essência diamantina,
grandeza de tudo,
divindade em si.
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09/07/2011
tenho a carne feia
um alfabeto de sonos
cartão-postal e dentro
memórias sem odisseias
já pouco de um tanto
os roucos segundos da noite
nas árvores sem tempo
que em tudo povoam
aos olhos de pavão
de nosso além-ser diminuto
nossas repetições circenses
às poções e acontecimentos.
naus de crítica nos afundam
para o fruto que esconde
noss’alma em busca.
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09/07/2011
O sol escurecido
abduz-se no reflexo
do orvalho.
O sol vai-se e deixa
seu irmão, o vazio.
Não provêm luz, mas
toca ausentemente
a fuga do sol,
quando é chamado
à terra pelos magnos
tons de violeta.
Da despedida,
narra, o sol,
sua causa.
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09/07/2011
O branco
só deixa
de ser luz
quando dentro
de um tubo de tinta.
Se liberado
– como Monet
usualmente o faz
– libera a paz,
é ferida da noite
num córrego,
como uma mulher prudente.
Não vale esticar-se
apenas pra discernir
sua aparência na prata
da água que atravessa o bosque
e toca de branco
a superfície.
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09/07/2011
O jogo faz-e-refaz
como um jogo no aqui,
mas fora de si, do poema.
O entrejogo da docura
também embriaga-me
para absorver-me
em sua nostalgia.
Ela está embriagada, está.
Ela perdoa as luzes
Dos olhares que emanam
dos centauros e dos sabores
cor de ébano, e de suas flechas
no vazio, de vazio.
Um gole doce será
sempre um jogo,
nunca ausente na presença,
nunca mentir ao máximo.
Torna-se jambo belo
e por tolices perde o tempo.
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09/07/2011
Semeado na lua cheia
verte-se o leite na curva
do líquido abaixo e o leito
que cevadas e arrozes
emocionam às rebeldes
naus, no delta sem fôlego,
sossegam atentas, esperam.
Fatigado e certo de ser
o umbigo do ombro
girando em janeiros
sobre as tumbas de si,
sem a sombra do anzol
para pesqueiros de ar
apareço comandado
por um esquecer brando
e alimentado de estórias
quando expiatórias, velam
pelos marujos cujos mares
maternos são emboscadas.
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09/07/2011
Cubra-me de pasto e cobre,
e num alforje sê-me como gorjeios.
Desfiladeiros como pulsos rompidos
e leves floreios como perdidos numa vinífera.
Sacrifique-me de néctar, como Heitor
que teve a origem desumanizada
pelas asas de Apolo, o flecheiro,
rumo as casas de Eólo, nascente do sol.
Cada camada de cada cobra quebrou-se
quando ao entardecer uma safira
foi lançada às praias do sul divino,
graças às curvas que o Noto compelia,
e foi ter com o mundo inferior, do pó,
na relva que das tâmaras brotava
e de perfídias lhe macerava, os Deuses,
Senhores do acaso, parceiros de dor:
Ajudem-me a imortalizar a chama,
temo por ter nascido tão adiante,
que posso contra a vontade de Cronos?
Se aqui quis que eu revivesse
- minha pele de gregárias silhuetas,
foi para esquecer-me agora
que puros merecedores somos
do levar a frente da vida.
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25/06/2011
DESDIFERENÇA

Que a hora se aproxima
co-funde-se muda uma
desconsumada estrela §
no rim, voo com ela §
- Diva de minha Graça §
vestido do mesmo
e livre de Helenas §
mastro-oboé flexível
à salga do vento que
oprime-nos sentenças §
vejo aquilo que ora
mascarado de cinza cena §
além do que ocupo
as lunetas do que observo
e seus cantarolares §
fornalhas de imos qual
possuides não-quês §
pouco a pouco, do nem ser §
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25/06/2011
Eis a última alvoroçada
rainha do mar; o amor é menina §
Jaspe de uma eixorquídea
vem com frutiferações cítreas §
são os meus perdíveis substratos
que cremam a copa olorando lima
e misturam-se ao mar com abundância
de si, como são §
camarões de tangerina §
Não lhos esqueça a intenção alcalina
em aéreos botões de roseira-tecido §
e os talos de agriões, no discurso regido
serão como camarões de tangerina.
Mas não é o ar
que há de me bastar §
argumentos terão largas piras de esquina §
e este ar será feito de aroma
pelo dedo de gelo que se descasca §
na prova de que há pérolas na fruta
em forma de varões do mar §
servos de escuras alas cristalinas §
no céu das bocudas monções
que no universo oposto ilumina §
onde inflarão breves nações
de meus camarões de tangerina §
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25/06/2011
Como enlaçadas vinhas
colhidas do pronto desejo
desplumado e vadio,
elo das proibições de uma oca
palma de areia-rio §
boa hora para o proveito
deste café sem aparência §
diante da voz mais profunda
e optada pelo sabor irrefreável §
destruidora do melhor §
ausente da mais clássica volúpia §
a deste autor que, último, doma
segredos do invento puro §
meço a temperatura daqui
qual da fala é ‘que se oculta’ §
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25/06/2011
No ante voz
que empenha-se em balés §
um caro engano
foi-te escondido
no atroz arbítrio
da noite em tua orelha-quina §
que parafina sáficos desafinos
e do amor altivo de um lírio
ares crepusculares vê em falta §
e trovara lutas §
como se guerreasse por mil
possuído ao derrame de rimas-cheiro §
genética culpa
desesperada de juízes
da média noite §
o quanto mais
de polvilho minha pele
recebe de tua pituca §
afluente da fonte
expresso do futuro §
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25/06/2011
Isto está finito §
o panteão derradeiro de uma ninfa §
revelada em brilho
como a não importar-se
com o dentro das valas comuns §
como se a Vênus
emergisse imunda
num pano de danças §
tão deslumbradamente fútil §
sendo sua própria língua-água
para os que não comem §
porque comer é ferir falsa beleza
chegada das paragens do coma §
se satisfeita com banais frutos
e passageiras canções §
dorme o seu leito que madruga
em meu peito torturado de outubros §
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25/06/2011
Em acordes de passo que
não transpassam a lugar algum §
mesmo que meia-luas de alho
que penetram minha carne §
esculturas de sopro §
maldigam a orgia de minha vontade
sem nunca ponderarem seus embulhos §
num plano verdejante de assalto §
minhas pupilas de ferimento
piladas como Garças maltrapilhas §
celebram a migração bem sucedida
e noturna da desembaraçada perdiz §
planando da solitária
geleira a seda §
triste atriz-solidão §
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25/06/2011
A -des essência diz ‘adeus’
natureza do passado vão §
-des original referência a Deus §
desessencialização §
traz ausentemente
por sua aparência
o enervo da presença §
quente véu de ausência §
na reza és santa suntuosa §
com o dorso suado de reticências
de poder, remetida e pomposa §
sua plebe, sua hóstia §
as diferenças §
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25/06/2011
vejo que por vezes
trago o -des §
refundando-me desejos §
mesclada terra
chovendo a gênese
do gole na amora de luto §
e seu limite capilar castanho §
inverno olvidado por desequilíbrios
e pelo aroma das ceifas de amora §
alimentando hospedeiros moribundos §
a remendar suas asas salvadoras
num contorno de purpúrea honra §
salta a morte da ponte
que traz de volta §
aquele que por ela vai §
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27/05/2011
SIGNONÍMIAS

fanopeia desvairada
recrea-se no seio
e antecede o passado
a iluminura a derreter-se
e pontear-se mitológica.
sempre a por vir
num desejo, futuro, inscrito, anterior,
saltando os maios
em períodos multilunares
para despertar-se no sono
que hospeda não-estrangeiros,
nova eternamente se atiça,
o obscuro
porta-voz da fogueira dos signos
arde e implora, salve-me, conhecimento,
não permita a estupidez
desmanchar dos rebaixes a estrutura
- cordas amarrando, dos tempos,
organismos de impulsos e sismos,
ordenando que se atirem
no meão do surdo abismo.
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27/05/2011
nas diferenças do estar
só leis abotoarão os ecos
do esquecimento em relevo
- ópera mista da fala a netos,
sobre rinos que debandam,
lavas rarefeitas cintilando,
uma tessitura portuguesa entoando
como em busca do mais saber;
não concorda a ti com ciência.
esburaco-me o trigo inexistente:
de que vale o Ser se é poética vazia?
mergulhar no vale fixo, transformador,
e virgulo meus desejos com alquimia,
a no corpo concedida – poeta do gene,
mas entre quais das ramagens amáveis
e quais de minha respiração infundada?
chego e vão-se ruídos de mim
servir noutros minguantes
ao sossego e dos penhascos
o estelar lençol aurora às turcas
de mortal olor-anel mistifica-se,
dedos meus – escribas à magia.
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27/05/2011
barões da história, os discursos,
na brancura nevoada
da real matéria-fala,
apagam-se à estréia
de seus corpos brilhantes
de traçados, de grammas,
de coisas que não são
aquilo que são, mas que
num lampejo árduo
se tornam o que indicam;
as cores e acentuadas
harpas, de seus arcos
os conjuntos de moléculas de olhar,
inflamam as paredes signomeando
com tintas a óleos dizeres
das essências
- extraí-las,
da presença, a linguagem.
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27/05/2011
e amar desfazei-me aqui
mantopenumbras de gemido,
andante a contratempo, intactas,
pelas dobradiças de além-dunas
para vaporar grutas às letras
[celestes entremeios germino]
que se aldeam brutas gemas
e digo: vá fiar consigo teu desconfio,
valete de fios em batalha, arremesse
lançasfora nas jugulares mesmas
só para espremer-me o sentido luto
como os escafandristas do refecho
- consoante altamaré da navalha;
vim da consistente fé que me dou
e ao desleixo hei de ver predominar
a época do eu que se apetrecha
qual domo de pára-raios pára as farpas
e a ponta-sal dos sentidos, insensível
vê-se desfiando-me a origem:
chuvacensura mortal, nego, calo,
no vir a ter com a alma nua
a refazer sempre o dessurgir
por de trás ao redor das saias-criaturas
quais não me evitam o recolho,
são texturas como sou, logosas,
que em breve verão-me o escrevo.
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27/05/2011
mel-azeite, recorda-me-te caso queiras
o amasso ao sim que te vi recebendo
enquanto tudo havia de errado
e redizíamos dias de sol
nos campos eternos de morango
- quem saberia de nossas flautas?
no beijo, caía-me uma flecha
e, no corpo, tua tepitude o berço.
temíveis – as rememórias de outono,
quem se importa com as verdades?
poucas, quase tantas coisas ditas
e mariposeastes com tuas alas pêra
oferecendo-me, o quê? outro chamego?
olhos de Juno, sou o grato que durmo;
quando toco-te os cabelos dá-me soro.
tua errância perfumada pelas frases
perfura a saída de um recém chegado
e, assim, literal, estás a minha altura.
[vês o tamanho do sol, logo abaixo?]
se és nenhuma, amante da nomenclatura,
como seria possível tanto amar-te
e por que semprenunca replicastes
‘deixai-me, avante,
marchai, retrocedida’?
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17/05/2011
Ao abrigo retorno o que
me pertence de imenso:
expressão ao exílio.
pulsam promessas
de assumir mil dialetos
num mesmo percurso,
condição que sabe
do estranho permanecer
fora ao nome.
palavras transformam-se
neste inominável
derramamento:
infladas, mãos erguidas
são cavernas, em troca
desdobram-me de prazer.
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16/05/2011
Enquanto a tinta não toca,
ou dos olhos aguarda a permissão,
tem o senso do universo, o papel.
com voz única a tremular
geme por palavras,
vício por autoridade.
sob um ar sonoro de lima,
o prazer do despertar
segue as teclas do silêncio.
vê do branco nuances
de intrincado arranjo:
se reconhece nas palavras.
palavra estranha, não à guerra,
violenta ao inverso, palavra
parteira, palavra-mulher.
no ímpeto do gozo, desfia
uma unidade não-palavra,
rabisco do nascer.
sinfonia de extremo alcance
revolvendo sobre o si,
traz também junto o fim,
faz-me triste, da certeza
não há explicação,
a ode está através.
Enviado em Palavra Estranha |
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15/05/2011
Exterior, a verdade
não suportava, estrangeira
realidade; circulava
a estranha palavra.
suplicar “devolva-me,
vira-ser” não adiantava.
“agora pertenço a outros!”,
retorquia-me soprado,
“infinito, posso tudo
desdobrar a razão.
serei-te como uma escada,
quer ouses testar-me
– e com prazer, mas atentes
à altura, desces demasiado
e não caminharás de volta
se profundo te espreitas.
meu poder seduz à dor,
alma alguma é-me real.
imperas uma sequer direção
e serás como quem medeia
um tempo único e impossível:
de agora em agora, futuras
clareza pendular que
o erro desperdiça a ideia”.
cismo: “ó, temeroso ofício
que vejo-me confinado.
que profecias serão estas
a mim diligenciadas
– quem sou, senão mero sujeito?”
Enviado em Palavra Estranha |
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14/05/2011
Retiro-me como quem
deixa de ser para voltar
a ser no mundo,
onde nada se pode
descrever, apenas pensar,
nem nada se pode
saber, apenas intuir,
e por mais que um poema
seja um poema, será sempre
um caminho de volta,
uma subida de declínio,
a fuga de uma busca
iniciada e abandonada
corajosamente
no meio do caminho.
do alto das nuvens, ao chegar,
verei como é bom não estar
(e que fundamental
é saber não estar)
para coletar vozes, imaginá-las,
nunca inscrevê-las, não matá-las
e matar-se, mas deixá-las
sobremodo bailando
como ilhas a cheirar como folhas
de relva massageadas de vento,
provando de colibris a companhia.
Enviado em Palavra Estranha |
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13/05/2011
Sujeito em lugar algum,
não se pode investigar,
não mais produz força;
quadro emocional.
não é mais um autor;
pretensioso humano
e sim uma bendita raiz
de estímulos,
pois, sua voz e balanço,
seus membros, tudo pode
explodir, pode caminhar
para qualquer lugar
e de lá voltar a sentir
novos prazeres, palavras
que virão estranhas
e muitas hão de ensinar
a arte do retorno;
que venham novamente,
em contrapartida ao gozo,
redimidas no futuro,
no caminho de volta
entre uma coisa e outra,
e dito isso, adeus,
habitarei a poesia!
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07/05/2011
TRAPÉZIOS DE LEONORA

performance nº 1
do
silêncio
uma manhã
silenciosa
- a mente
sã.
quietude
sente
o alaúde
e o que é surdez
senta-se
em
paz
silenciociosa
e vã.
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07/05/2011
loco-te, morada, um recife;
desde o flamejante naufrágio,
formastes tua sina.
sei que és de saltar o quando,
tamboreada por dunas;
mencionas os angélicos,
masco tuas trilhas,
traço elefantes no pó:
desapercebo-os e passo.
neles passo sem posses
por minh’época
de queixas.
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07/05/2011
Fúrias:
- égide falha, sopapo tomo.
adapto-me aos círculos,
meço gramos do Inferno,
ganhos de sangue.
Damas:
- lâmina esparsa, pernas.
alvas reitoras do flutuante
comércio: eis, jangada mia!
Desamado:
- quebra o caco seco,
cachaça desabastecida!
acredite o sol e suas velas,
quais neste plano?
Enéias:
- “flechas, traiam! transitem!”
nem pode de meu brado
o vento afastar-lhes do erro.
nós, palavras, somos
prisioneiros do que se fala
e não há fugas, forasteiro,
a fundar palácios, combatente!
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07/05/2011
grão dorme, escorrega o Nilo.
no cio da colônia, um fumo albino
reza por reses em pirâmide:
cordas constroem túmulos
(frágeis tomos de abrigo)
e semeam, glandulares,
mil famílias de bandeiras;
ordens dadas, línguas em crivo j’adormecem,
como sacerdotais caminhos de chamas.
afunilado intento jorrar
a pouca, barrenta,
água-deserto;
antes em tal paragem, migro à plantação submarina.
dardos e gargalhadas isolam,
temendo sicários cavalgantes,
expressões surdas de seu pólo.
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07/05/2011
Dante a flora, bençoa:
- ó subliminar, ó supremo,
quem sou ti, toscano,
quem és mim, deusdemo?
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07/05/2011
jasmim, jasmim.
porque cresces
emana a profundeza
das flores,
flores de vento
invernal em
teus cabelos,
amada figueira
de um riacho,
degelando colinas.
última em espelho,
és solar e altíssima,
és primeira ama-de-leite.
escama minha,
escama amável.
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07/05/2011
quero o sou que à noite adentro.
não espere versos que passam.
o sou abutreado pelas palavras,
o advento destas fontes, de si-
lêncio?
o dentro jovem do caderno,
o recôndito da questão:
mentir já não desejo.
antes, tal sou é do que sou feito,
como longos trechos binários,
charretes, apartando-se da parte.
faço votos de que permaneças dúvida:
moira fecunda – relembra e encerra cantos.
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07/05/2011
nas ruas do Brasil, Ruanda; do horror.
não do humano; do inimigo o pavor.
não há palavras, elas sobram tristes.
no terreno das cabeçadas, o lamento
de não se ouvir como um brilho:
o do sol exercendo a arte de morrer,
relembrando velhos tempos de aurora.
faço com ele parte de um todo,
o do Nada brasileiro, não se afugentem.
o que somos? um lugar unido, dramatúrgico:
do orgulho pobre o ser subjugado,
da terra, a autoridade eletiva, cega.
elegemos inimigos.
afastamo-nos dos amigos.
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07/05/2011
colheita de inspiração, campanha fácil, inscrever tantas brevidades.
faço o poema-coleção;
ínfimos trechos, emoção descolada no vazio.
passa o tempo como uma febre,
tão sempre escalando calado.
verão. primavera do monte-além
expele miséria em toda a gente.
quem?
estão nos coqueiros, nas águas sérias
a brandir cimitarras, com desdém.
enroscadas no belo seio oceânico,
aportadas em minhas cartas e lágrimas, surgindo do eterno humor;
olvidavam-se daquele signo feroz:
“me dê um beijo meu amor”… ?
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07/05/2011
o que não se lê
não se é memória.
espalhados somos
todos água fresca.
o que não se lê
não conta história
& somos todos ao mar
de acontecer pesca.
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07/05/2011
ó demônio de cera láctea,
em frívolo e lascivo cântico,
uno agasalhas gerânios órfãos,
ao colher de hortelãs que pulsam.
mil maravilhas, em hábeis furtos,
zunidas de letras desvairadas:
runas futuras, imunes espadas.
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07/05/2011
inaudito movo-me
– fiapo de vime,
pelo couro da âncora vocálica
dos bem-te-vis
e desço, navegador
e artilheiro, evasivo,
vazando meus níqueis:
de um visgo amarelado,
taxado de “serpente gorda a vista”,
empalado por Palas tridenduta,
que me embala em sua balança,
corto de sua membrana as glândulas,
sofro o elo sândalo das mangas.
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07/05/2011
quase desacordado,
desbravo o esquecimento,
motivo de lembrar o oposto Sol,
Sol que há lá fora, Sol onde repouso.
quero-o nunca desperto.
pernas e troncos passam lentos,
refinam lentos minhas faces do ócio,
que em tudo me desfaz e perde.
cravos & santuários, sono meu,
dourando a cegueira na névoa.
de modo que destenho relevos,
abóbadas; um cajado e rebanhos.
se longe das alturas
pairo na fundura alagada dos livros,
quantas mortes não abrigam?
tenha calma, vem lá o vigia,
passarinho a bicar meu vidro.
veio me anunciar que tudo já brilha.
que hei de fazer? procedo o dormir.
de mim não necessita esse exterior.
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07/05/2011
mas que urânio lavrado
de meus pensamentos ativaria
todas as melodias não compostas
em minha selvagem metrópole
de acrópoles exiladas?
trapezista de chaminés,
desativaria o tempo das poetices
herdadas num pontuado sacrilégio,
coagido a descer ao vale dos mortos,
mundo de paz, pra encarnar consumado?
segue o leito a sedutora afloração
do céu cristalizando noites, anfitriões.
faço casamentos de famigerados reinos,
designado pela mão que me protege benta.
levo-a às margens, à lagoa peregrina.
um galho de anúncio tempestua e recua,
alfinetado como uma pregação sem crer,
ou um veemente artifício; ensinado rapto
às chagas; transmuto-as em alfabetos
e espiralo rubras jóias, lugares de chacina.
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07/05/2011
eis canto verde,
silencias a fumaça
na luz vozeada, a ninas;
aberto diante nada
foge de acender o lírio,
derrame de seu dia.
são puros fechos,
sem escolha, as tuas
palavras com ternura.
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07/05/2011
lua de ruiva morada
sorrio ao ver-te chegar
e oculta, dentro do vazio,
tu me esperas, sem serás.
alagarás o calor, minha estrela?
relembrarás meu traço, rosto?
propagando amor corado a jejuar,
serena, filtrarás de mim seus beijos?
revela-me o abismo,
ó musa musical e pervesa,
como os riachos descem
das pedreiras o mel.
queda de fundo perene,
no mais, aguenta o ermo,
botão de roseira, perfumas
dominical os imigrantes,
num sol de vozes singrantes,
por toda parte transpiradas.
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